Para a maioria
esmagadora das pessoas, a palavra ESTABILIDADE é
o predominante objetivo de suas vidas. Não importando
o aspecto de suas respectivas existências, despendem
tempo e esforços para alcançá-la.
Mas... seria ela, a estabilidade, um fim em si mesmo,
que dignificaria a existência humana, e o fato de
conquistá-la agregaria valor ao caráter
do “homo sapiens sapiens”? E, uma
vez alcançada, teria a pessoa coragem, força
e, principalmente, a ousadia de abandonar sua zona de
conforto, experimentando os dissabores de uma nova batalha
para iniciar a busca da real prosperidade necessária
a um novo ciclo de estabilidade ainda maior e mais amplo?
De acordo com a Wikipedia, a expressão estabilidade
está associada à ideia de permanência
em um determinado estado por um determinado ente. Nas
ciências matemáticas, é uma propriedade
dos sistemas dinâmicos. É, em suma, a capacidade
que um sistema possui de esquecer o seu passado e, conforme
o tempo, tende a infinito. Mais precisamente, um sistema
dinâmico é dito assimptoticamente estável
se tende ao seu ponto de equilíbrio. No caso dos
sistemas lineares, isto significa que o movimento livre
do sistema tende para zero com o passar do tempo.
Paralelamente, a estabilidade também é um
conceito próprio da resistência dos materiais.
Na engenharia, a estabilidade significa a capacidade de
resistência desse material a uma força a
ele aplicada. Tal resistência é dada em função
de seu processo de fabricação, e os cientistas
empregam uma variedade de processos para alterar essa
resistência posteriormente. Estes processos incluem
o encruamento (deformação a frio), a adição
de elementos químicos, o tratamento térmico
e a alteração do tamanho dos grãos,
métodos que podem ser perfeitamente quantificados
e qualificados; entretanto, tornar materiais mais fortes
pode estar associado a uma deteriorização
de outras propriedades mecânicas. Por exemplo, na
alteração do tamanho dos grãos, embora
o limite de escoamento seja maximizado com a diminuição
do tamanho destes grãos; quanto menores forem,
mais quebradiço é o material. Em geral,
o limite de escoamento de uma substância é
um indicador adequado de sua resistência mecânica.
Na seara da economia, a estabilidade diz respeito à
inexistência de mudanças bruscas na economia
de um determinado grupo ou país. Nesse aspecto,
equivale à característica estável
da situação financeira e econômica
do país, sem alta de preços, com a manutenção
do custo da cesta básica, sem oscilações
em taxas de juros. Aqui, a estabilidade é pré-requisito
para o crescimento sustentável de um país
e, portanto, para uma sociedade com mais justiça.
A estabilidade nos preços e a diminuição
da desigualdade social ajudam na melhoria do poder aquisitivo
da população de baixa renda e, enfim, na
redução da pobreza, por meio de uma melhor
distribuição de renda.
Mas Joseph Schumpeter, em sua teoria - fundamental para
a ciência econômica contemporânea -,
defende a idéia de que, para a economia sair de
um estado de equilíbrio e entrar em um boom,
é necessário o surgimento de alguma inovação,
do ponto de vista econômico, que altere consideravelmente
as condições prévias de equilíbrio.
Temos como exemplos disto a introdução de
um novo bem no mercado, ou a descoberta de um novo método
de produção, e ainda a comercialização
de mercadorias. Da mesma forma, a conquista de novas fontes
de matérias-primas ou, por fim, a alteração
da estrutura de mercado vigente, como a quebra de um monopólio.
A introdução de uma inovação
no sistema econômico é chamada por Schumpeter
de “ato empreendedor”, realizada pelo empresário,
visando à obtenção de um lucro. Esse
lucro é o motor de toda a atividade empreendedora,
não sendo ele apenas a simples remuneração
do capital investido, mas, como o lucro extraordinário,
insumo necessário para novos investimentos e transferências
de capitais entre diferentes setores.
Tais conceitos servem como base para nossa reflexão.
Não se sabe por qual razão, mas certo é
que a maioria das pessoas a procura incessantemente. Não
poupam esforços para alcançá-la –
a estabilidade -, ainda que essa busca infindável
implique um egoísmo vil e autodestrutivo, que culmina
na mais gélida alienação, que enclausura
inconscientemente o indivíduo num mundo de falsa
noção da realidade. Aquele que procura por
estabilidade acaba cego por seus próprios anseios.
É a comprovação da máxima
de Nietzsche, de que “... qualquer um que luta
contra um monstro, deve ter cuidado de não se transformar
em um monstro; e, quando olha profundamente para um abismo,
o abismo também o contempla” (Para Além
do Bem e do Mal, 1886). Nâo importa que sua trajetória
traga dissabores aos que o cercam; não importa
que sua reputação fique maculada; não
importa se os meios utilizados são reprováveis
moralmente. Para estes, o fim sempre justificará
os meios, desde que ele seja alcançado. Analisando
pormenorizadamente essa assertiva, a engenharia nos dá
a explicação: enquanto nuances da personalidade
são ressaltadas nessa busca pela estabilidade,
outras – incompatíveis ou inconvenientes
– são relegadas ao segundo plano, deformando
a personalidade do indivíduo. Certamente, isto
ocasiona os conflitos interpessoais, pois o natural antagonismo
de objetivos individuais se torna ainda mais complexo
diante das manietações das respectivas personalidades.
Mas é justamente quando essa estabilidade é
conquistada, que ela demonstra sua face mais perversa.
O “status” adquirido passa a ser
a zona de conforto deste indivíduo. Este se apega
de modo tal a esta situação, que não
se imagina noutra realidade. A situação
de dependência dessa condição é
de tal forma simbiótica que o “estabilizado”
acredita não ser possível sua vida em outra
situação. E, assim, rechaça eventuais
possibilidades de enfrentar novos desafios. Nesse momento,
evidencia-se o viés matemático da estabilidade.
O indivíduo entra num estado de inércia
dentro de sua zona de conforto de uma forma tal que ignora
seu passado e a luta enfrentada para chegar onde chegou.
Isso passa a ser sua maior característica, o que
lhe tolhe a capacidade de discernimento, motivando uma
inversão em sua percepção, pois sua
condição estável lhe cega diante
de novas possibilidades. Por isto, o retrocesso causado
pela estagnação é seu triste e doloroso
destino final.
Poucos têm a consciência de que a entropia
é algo salutar e necessário para o real
crescimento individual. Quando efetivamente desejamos
que uma realidade de fato continue em estado evolutivo,
devemos entender que é necessário haver
uma ruptura com o “stablishment”.
Devemos abandonar nossa zona de conforto e enfrentar todos
os medos, angústias e incertezas. Enfrentar o desconhecido
com a coragem, astúcia, argúcia e ousadia.
O novo traz novas ideias, novas experiências, novas
sensações, novas consequências, novos
contatos e, principalmente, agrega valor à existência
humana e, ainda que possam trazer experiências traumáticas,
elas serão proveitosas.
O principal é que a turbulência causada por
um período de transição nada mais
é do que a preparação para todo um
novo ciclo de prosperidade. Prosperidade essa que é
a merecida recompensa para aqueles que têm a hombridade
de não se conformarem com a – enganosa e
miserável – sensação de conforto
trazida pela estabilidade. Afinal, como o visionário
Schumpeter pontuou, são necessárias inovações
para que o estado de equilíbrio se altere: a mudança
de anseios, ou a descoberta de novos objetivos de vida
ou, por fim, a alteração total da realidade
em que o indivíduo vive.
Sábio mesmo é aquele que faz a leitura correta
das situações, visualizando o momento correto
de modificar seus anseios, potencializando a gama de seus
objetivos de vida e, principalmente, tem a coragem de
alterar totalmente – e por si só - a realidade
em que vive com o objetivo de alcançar o real crescimento
moral, psíquico, intelectual e espiritual...
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