Dando continuidade ao nosso propósito de esclarecer a população sobre temas jurídicos de relevância, tenho a honra de encaminhar um artigo de autoria do Dr. José Lazaro Suletroni, Coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente desta 117ª Subsecção da OAB/SP – Barueri, que traz à baila um assunto atual e extrema importância, e que trata da infância e juventude.

O objetivo do texto não é apresentar uma tese ou uma afirmação sobre o que se deve e o que não se deve fazer, mas, sim, uma proposta de reflexão sobre os nossos conceitos, em especial, tudo aquilo que está ligado, não ao dever legal, mas, ao dever moral.

Ressaltamos que tudo que se refere à criança e ao adolescente é um problema de todos, daí porque devemos unir as idéias e as ações, a fim de assegurar o que é melhor para estas criaturas que são o futuro deste País.

Esperamos haver contribuído para este objetivo.

Dr. José Almir
Presidente da 117ª Subsecção da OAB/SP - Barueri

 
 
 

Criança e Lei

Por Dr. José Lazaro Suletroni

Jamais nos esqueçamos que, além da Constituição Federal, a Lei Maior deste País que impõe normas de proteção ao menor, existe ainda outra Lei Maior ditada por um Ser Supremo que nos criou, que é verdadeira e inegavelmente perfeito para nos julgar, a quem todos, sem exceção, teremos que prestar contas, e exatamente Àquele que confia, aos adultos, a guarda destas crianças.

Diga-se, aliás, que são crianças com tamanho grau de evolução, que inúmeras delas passam o que passam, sofrem o que sofrem, e, em que pese tudo isto, permanecem amorosas, esperançosas e confiantes perante os adultos, como se quisessem nos ensinar a “ser gente” na verdadeira acepção do termo.

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A insensatez de sonhar que estão protegidos pelo manto da impunidade, e, num comportamento mais hediondo que o próprio hediondo, explorar, expor ao perigo, e submeter ao sofrimento criaturas tão inocentes e indefesas, conduz determinados adultos por um caminho tão sombrio que não tem volta, exigindo, assim, o seguinte alerta: parem, enquanto há tempo.

Não é de hoje que perdura essa doença social, que é o abandono do menor. Aliás, isto ocorre desde o descobrimento do Brasil.

Esta realidade nos leva a concluir que não se trata de falha de governo, atual ou passado, e sim de uma falha da sociedade.

E, se a sociedade falhou, significa dizer que todos nós falhamos, governantes e governados, representantes populares e representados, autoridades e cidadãos.

Este País já passou por Colônia e Monarquia; foi Proclamada a República, veio a ditadura do Estado Novo, restabeleceu-se, por um curto período a Democracia; tivemos até mesmo o Parlamentarismo no início da Década de 60; veio a Ditadura do Regime Militar; restabeleceu-se a Democracia; tivemos Governo de Direita, Esquerda, Centro-Direita e Centro-Esquerda..., e tudo permaneceu da mesma maneira.

Decorre daí que não se trata de ideologia, doutrina partidária, etnia, nacionalidade, cor, raça, sexo, crença religiosa, condição socioeconômica, escolaridade, ou o que mais se possa imaginar, para justificar o problema do menor no Brasil.

Por isto podemos dizer que falhamos como sociedade, e, principalmente, como pessoas. E se nós pretendemos resolver este problema que perdura há 508 (quinhentos e oito) anos, antes de tudo devemos parar, e fazer uma reflexão sobre onde todos nós erramos, objetivando evitar que, mais uma vez, venhamos a atribuir a responsabilidade dos erros que cometemos sobre a verdadeira vítima, o menor, fazendo-o sofrer as conseqüências.

Pensando melhor, não podemos ver o menor, em especial, o adolescente, como vítima da sociedade, e sim, como o resultado do que nós fizemos.

E o que mais nos deixa estarrecidos é que todos nós amamos nossas crianças, e, seja por despreparo, inexperiência, negligência, ignorância, ou por seja lá o que for, não sabemos lidar com elas.

Ficam várias perguntas no ar: Será que soubemos dar o exemplo? – Será que soubemos transmitir a elas o que é certo? - Será que tivemos a liderança suficiente para que elas nos seguissem? – Será que as oprimimos? – Será que lhes demos liberdade demais? – Será que demos a elas atenção suficiente? - Será que soubemos amá-las? – Será que soubemos falar? Será que soubemos ouvir? Será que conseguimos ver? Ou será que nos recusamos a enxergar?

Outro paradoxo é o fato de atualmente possuirmos um Estatuto da Criança e do Adolescente que é considerado o mais perfeito e moderno do Mundo.

É de se repetir a constatação de que não se trata de uma falha de Governo, ou de Legislação, e sim, uma falha nossa, pessoas adultas, que devemos amadurecer e mudar, não a Lei - aprimorá-la, talvez -, mas, acima de tudo, mudar a nossa cultura como sociedade.

Significa dizer que, mesmo que alteremos toda a nossa Legislação, jamais conseguiremos erradicar esta doença social, que é o problema do menor, se não mudarmos a nossa postura e os nossos conceitos em relação à criança e ao adolescente.

E, para isto, devemos extirpar a radicalização sobre os conceitos. De um lado, não devemos superproteger a criança, pois isto a impede de crescer como pessoa, e, de outro lado, não temos o direito de exigir que ela tenha a maturidade e o senso de responsabilidade que nós, adultos, apesar do dever, de há muito não estamos conseguindo ter.

Não é difícil compreender que, a partir daí, se pretendemos resolver o problema, nós, adultos, antes de qualquer coisa, devemos crescer como pessoas e como seres humanos, na medida em que, para estarmos preparados a ensinar, devemos “saber fazer”.

Além do fato de todos nós gostarmos de criança, ela, a criança, quando surge em uma família, se torna um ponto de união, fazendo com que os adultos fiquem mais próximos.

Assim, se todos encararmos o Brasil como uma só família, e olharmos as nossas crianças com maior e melhor atenção, nós, adultos, viveremos de forma harmoniosa.

O que não podemos e não devemos fazer é permanecer de “braços cruzados”, à espera de uma “lei milagrosa”, ou que surja um “gênio de plantão”, que apresente a solução, nos esquecendo que o problema não está na “Lei”, e sim em nós mesmos.

Sem dúvida alguns dispositivos devem ser aperfeiçoados em nosso ordenamento jurídico; entretanto, devemos, acima de tudo, verificar o que não estamos cumprindo relativamente à legislação atualmente em vigor.

O nosso Estatuto da Criança e do Adolescente é bem claro no que concerne à escala de responsabilidades em relação ao menor: a Família em primeiro lugar; a Comunidade em segundo lugar; a Sociedade em Geral em terceiro lugar; e o Poder Público em quarto lugar.

Isto nos leva à clara conclusão de que não devemos transferir, uns aos outros, o que é dever de todos, e para tanto, devemos conscientizar e fortalecer quem está em primeiro lugar na escala de responsabilidades, ou seja, a família.

Existem certos comportamentos que sequer necessitariam integrar uma Norma Legal, tais como: amor, carinho, atenção, cuidado, proteção, pois, os seres irracionais já os praticam com seus filhotes, porquanto, isto já faz parte da “Lei da Natureza”, o que nós, os racionais, ainda não conseguimos aprender e compreender adequadamente.

Aliás, tais comportamentos e atitudes não geram despesa, tampouco incidência tributária, o que afasta até o argumento da pobreza para justificar tamanho descaso com as crianças, pois, luxo jamais foi sinônimo de bem-estar.

Contrário fosse, não estaríamos assistindo a um assustador crescimento da violência entre os jovens de classes mais abastadas.

Significa dizer, que em vez de buscar justificativas, o que devemos fazer, é agir. E agir, é tomar atitudes coerentes e equilibradas, sem radicalismo, demagogia, preconceito, intolerância, sentimento de culpa, ou qualquer outra postura que somente faça parte apenas de “discursos”.

Ora, é muito fácil, e muito cômodo, permanecermos debatendo teses, doutrinas, filosofias, etc., enquanto assistimos ao problema do menor se agravar a cada dia, mesmo porque, se permanecermos inertes até que a legislação se modifique ao gosto de cada um, “não chegaremos lá”.

Por certo, o problema se agrava porque as crianças e os adolescentes, que detêm uma percepção maior e melhor do que a dos adultos, nos assistem discutindo problemas que são deles sem achar uma solução, o que fatalmente gera neles o que há de pior, a insegurança e a desconfiança, resultando a rebeldia, a revolta e a desobediência.

Para imaginar o que passa em suas mentes, basta lembrarmos os nossos tempos de criança, e o que pensávamos sobre a incoerência e atitudes equivocadas daqueles que nos criaram e cuidaram de nós, e por óbvio, não gostávamos disto. Já passamos por isso.

E agora, para justificar e acobertar os erros que são nossos, pretendemos punir o menor sob o argumento de que o adolescente tem noção do que é certo e do que é errado, e tem o dever de saber o que faz!!! Este é o mais reprovável estelionato moral que podemos praticar!!!

Muito melhor será se, enquanto a legislação não se adapta aos nossos mais variados gostos, aproveitarmos a que está em pleno vigor e cumpri-la em seus exatos termos, e de conformidade com os seus objetivos, seja quando tivermos que proteger, orientar, educar, repreender, corrigir um menor, e, até mesmo, quando for necessário afastá-lo do convívio social para reeducá-lo. Isto sem esquecer da dignidade humana, e da disciplina, agindo sem qualquer radicalismo, e lembrando-nos, sempre, que o dever legal deve vir acompanhado do dever moral.

 
 

















Dr. José Lazaro Suletroni
Coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente
117ª Subsecção da OAB/SP - Barueri