Hoje é seu aniversário e eu gostaria de
lhe oferecer um presente muito especial, um presente que
não se encontra para vender e, por isto mesmo,
tão caro. Hoje quero lhe dizer uma porção
de coisas que carrego no meu coração.
Inicialmente, quero que você saiba que admiro muito
a lealdade e o cuidado com que você trata o meu
pai, após o seu acidente. A tragédia arrancou
os seus sonhos, mas não conseguiu apagar a sua
esperança, a sua força, e, principalmente
a sua alegria.
Agradeço por você ter podido oferecer a ele,
no momento em que a sorte mudou o jogo, o retorno de todo
amor, carinho e sabedoria com que ele iluminou a sua vida
e a de nossa família.
Sempre fiquei comovida ao ouvi-la dizer todos os dias:
“Obrigada, meu Deus!!!”, nos momentos bons,
na rotina dos dias ordinários, após os sustos
que a vida dá...
Eu também sou grata a “Ele”, por esta
oportunidade de lhe dizer, no seu dia, com o coração
sereno e em paz:
- Eu compreendo, Mãe, que, toda vez que você
me impediu de fazer as coisas que eu amava, era porque
você não sabia que a minha alma precisava
viver aquelas experiências. Eram coisas simples
e acessíveis, mas você repetia não,
não, e não, sem nenhuma cerimônia.
E me faltou muita coisa, Mãe... muita coisa.
- Hoje, eu compreendo que a minha falta foi a sua falta,
e, que, na sua infância, Mãe, você
também não teve a chance de aprender sobre
sonhos, presentes de aniversário, partilha com
amigos, dengos, pequenos grandes gestos de carinho e cuidado.
- Eu sei, Mãe, que você deu para mim o seu
melhor, o que julgou ser o correto para a minha formação.
E sei também, Mãe, que, as coisas que você
não me ofereceu, foi porque elas nunca existiram
na sua vida e no seu coração. Você
não poderia dar do que não recebeu, não
é mesmo? E na Escola da Vida não existe
curso de Mãe...
- Eu reconheço como tudo foi difícil para
você. Hoje, eu a compreendo...
- Obrigada, Mãe, por você ter-me ensinado
a manter acesa a chama da esperança, a fé
na vida, a transparência no caráter, o prazer
de cantar, a força de não desistir, o desejo
de amparar e doar, a compaixão, a coragem para
expressar a verdade e, principalmente, por ter-me ensinado,
diante das rasteiras da vida, a dizer: “se todo
mal fosse esse, o mundo seria bem melhor”.
- Todas essas coisas boas e bonitas foram heranças
que você distribuiu e ensinou vivendo a sua própria
vida. Eu não perdi nada, aproveitei tudo o que
pude de bom, e o que não foi bom eu procurei transformar
em aprendizado.
- O amor que você deu me fez essa pessoa de bem
que eu sou, e o amor que você não teve para
dar me transformou numa buscadora da verdade da alma.
- “Obrigada, meu Deus”, por você estar
viva e poder receber esta carta.
- Obrigada, Mãe, por tudo que descrevi, por tudo
de que não lembrei, pela minha vida, pelas blusas
de tricô que você tecia e que eu sempre esquecia
nos ônibus, nas visitas domingueiras à família.
Obrigada pelos vestidos que você me fez, principalmente
o da primeira comunhão, por ter obrigado a escola
a me aceitar como aluna antes da idade permitida, pelo
cachorrinho Zig e pela Sara, a boneca com a qual eu dividia
os sonhos, os muitos sonhos que sonhei acordada.
- Obrigada, Mãe, principalmente pelo “Obrigada,
meu Deus!!!”.
Sua filha – 18/10/2002. |