No Dia das Mães, gostaria de partilhar com vocês o melhor presente que dei para a minha, em seu 70º aniversário, comemorado em 2002.


Carta à minha Mãe
 
 
Hoje é seu aniversário e eu gostaria de lhe oferecer um presente muito especial, um presente que não se encontra para vender e, por isto mesmo, tão caro. Hoje quero lhe dizer uma porção de coisas que carrego no meu coração.

Inicialmente, quero que você saiba que admiro muito a lealdade e o cuidado com que você trata o meu pai, após o seu acidente. A tragédia arrancou os seus sonhos, mas não conseguiu apagar a sua esperança, a sua força, e, principalmente a sua alegria.

Agradeço por você ter podido oferecer a ele, no momento em que a sorte mudou o jogo, o retorno de todo amor, carinho e sabedoria com que ele iluminou a sua vida e a de nossa família.

Sempre fiquei comovida ao ouvi-la dizer todos os dias: “Obrigada, meu Deus!!!”, nos momentos bons, na rotina dos dias ordinários, após os sustos que a vida dá...

Eu também sou grata a “Ele”, por esta oportunidade de lhe dizer, no seu dia, com o coração sereno e em paz:

- Eu compreendo, Mãe, que, toda vez que você me impediu de fazer as coisas que eu amava, era porque você não sabia que a minha alma precisava viver aquelas experiências. Eram coisas simples e acessíveis, mas você repetia não, não, e não, sem nenhuma cerimônia. E me faltou muita coisa, Mãe... muita coisa.

- Hoje, eu compreendo que a minha falta foi a sua falta, e, que, na sua infância, Mãe, você também não teve a chance de aprender sobre sonhos, presentes de aniversário, partilha com amigos, dengos, pequenos grandes gestos de carinho e cuidado.

- Eu sei, Mãe, que você deu para mim o seu melhor, o que julgou ser o correto para a minha formação. E sei também, Mãe, que, as coisas que você não me ofereceu, foi porque elas nunca existiram na sua vida e no seu coração. Você não poderia dar do que não recebeu, não é mesmo? E na Escola da Vida não existe curso de Mãe...

- Eu reconheço como tudo foi difícil para você. Hoje, eu a compreendo...

- Obrigada, Mãe, por você ter-me ensinado a manter acesa a chama da esperança, a fé na vida, a transparência no caráter, o prazer de cantar, a força de não desistir, o desejo de amparar e doar, a compaixão, a coragem para expressar a verdade e, principalmente, por ter-me ensinado, diante das rasteiras da vida, a dizer: “se todo mal fosse esse, o mundo seria bem melhor”.

- Todas essas coisas boas e bonitas foram heranças que você distribuiu e ensinou vivendo a sua própria vida. Eu não perdi nada, aproveitei tudo o que pude de bom, e o que não foi bom eu procurei transformar em aprendizado.

- O amor que você deu me fez essa pessoa de bem que eu sou, e o amor que você não teve para dar me transformou numa buscadora da verdade da alma.

- “Obrigada, meu Deus”, por você estar viva e poder receber esta carta.

- Obrigada, Mãe, por tudo que descrevi, por tudo de que não lembrei, pela minha vida, pelas blusas de tricô que você tecia e que eu sempre esquecia nos ônibus, nas visitas domingueiras à família. Obrigada pelos vestidos que você me fez, principalmente o da primeira comunhão, por ter obrigado a escola a me aceitar como aluna antes da idade permitida, pelo cachorrinho Zig e pela Sara, a boneca com a qual eu dividia os sonhos, os muitos sonhos que sonhei acordada.

- Obrigada, Mãe, principalmente pelo “Obrigada, meu Deus!!!”.

Sua filha – 18/10/2002.