Onde foi que me perdi de mim?

Repito a pergunta na busca de mim mesmo e encontro pistas, rotas clandestinas de caminhos que eu não tinha o desejo de percorrer, morte de desejos que não tiveram força para nascer e outros tantos arrancados em pleno desabrochar. E medo, muito medo dos desvios provocados por pessoas amadas que detinham o poder sobre o meu destino.

É lá atrás, logo no comecinho da caminhada, por volta dos cinco anos de idade, que descobrimos, de maneira muito sutil, que teríamos de fazer alguma coisa para sobreviver. E fizemos... e fomos trocando sonhos e calando o bico. Criança não tem vez! Você é o último que fala e o primeiro que apanha! O mundo dos adultos parecia um filme e nós não estávamos inseridos no contexto. Fomos espectadores desse teatro, às vezes de alegria, às vezes de horror.
 
 
E calamos, calamos o bico, porque falar comprometia e o silêncio era seguro. Deixamos de manifestar a nossa opinião porque ela nos incluía ou nos bania do grupo. Numa linguagem silenciosa, fomos percebendo o que gostavam em nós, o que não gostavam e o que pretendiam de nós.

Fizemos escolhas desesperadas: ou fazíamos o contrário de tudo o que esperavam de nós, ou exatamente o que esperavam de nós, e, em qualquer dos casos, perdíamos a liberdade de escolher quem queríamos ser. Fomos nos repetindo na realização dos objetivos alheios, sonhando com a aprovação, o amor, o colo o beijo...

Alguns se rebelaram e chutaram tudo para o ar. Outros amordaçaram o coração e começaram a executar os planos que esperavam deles. Dois extremos, dois caminhos, um só destino: a perda da liberdade de “ser”.

Crescemos assim, e quando estávamos completamente perdidos, olhávamos para dentro de nós e não sabíamos dizer o que realmente desejávamos da vida. Perdemos a própria referência por falta de uso... Qual é a nossa cara, o nosso gosto, qual é o nosso propósito? Nessa confusão, muitas vezes ouvimos, lá pelos vinte anos, “você precisa ter personalidade”, “você precisa saber o que quer da vida”. Como???

E cada um acabou resolvendo o assunto à sua maneira, uns encontraram um “novo alguém” para mandar na sua vida, outros venderam a liberdade de “ser” em troca de aprovação ou conforto, alguns se calaram num silêncio de abandono, outros reagiram e foram à luta... “eu, caçador de mim”...

É preciso coragem para romper com essas estruturas e isso acaba acontecendo um dia, num tempo que difere para cada pessoa, mas é um processo doído, é um acerto de contas de foro íntimo, um resgate da própria essência que fomos permitindo que se corrompesse.

Penso que foi assim que nos perdemos, de uma maneira lenta, quase imperceptível. Foram arbitrando em nossa vida e nós fomos permitindo. As razões são diversas, mas permitimos. Ficamos “certinhos” por fora e rasgados por dentro.

Onde foi que me perdi de mim? A pergunta é tão abrangente que seria tema de livro... um livro que ainda pretendo escrever, contando os desencontros que vivi e os desencontros que partilharam comigo, neste longo caminho em busca do autoconhecimento.

Um livro que conte a história de todos os encontros que foram possíveis com o despertar da consciência, de todos os universos que se abriram a partir do momento em que se abriu a possibilidade de saber quem somos e a que viemos...

Garanto que vale a pena, vivi e presenciei verdadeiros salvamentos humanos, pois a felicidade que advém dessa conquista é tão genuína, é tão grandiosa, que abre um novo mundo à nossa frente, um mundo que vale a pena ser vivido, cheio de esperança, fé e poder de transformação.

Onde foi que me perdi de mim? Talvez não identifiquemos o local, nem o momento, mas isso não tem importância: o despertar para a pergunta já é um início de encontro, um encontro com você!