E calamos, calamos o bico, porque falar comprometia e
o silêncio era seguro. Deixamos de manifestar a
nossa opinião porque ela nos incluía ou
nos bania do grupo. Numa linguagem silenciosa, fomos percebendo
o que gostavam em nós, o que não gostavam
e o que pretendiam de nós.
Fizemos escolhas desesperadas: ou fazíamos o contrário
de tudo o que esperavam de nós, ou exatamente o
que esperavam de nós, e, em qualquer dos casos,
perdíamos a liberdade de escolher quem queríamos
ser. Fomos nos repetindo na realização dos
objetivos alheios, sonhando com a aprovação,
o amor, o colo o beijo...
Alguns se rebelaram e chutaram tudo para o ar. Outros
amordaçaram o coração e começaram
a executar os planos que esperavam deles. Dois extremos,
dois caminhos, um só destino: a perda da liberdade
de “ser”.
Crescemos assim, e quando estávamos completamente
perdidos, olhávamos para dentro de nós e
não sabíamos dizer o que realmente desejávamos
da vida. Perdemos a própria referência por
falta de uso... Qual é a nossa cara, o nosso gosto,
qual é o nosso propósito? Nessa confusão,
muitas vezes ouvimos, lá pelos vinte anos, “você
precisa ter personalidade”, “você precisa
saber o que quer da vida”. Como???
E cada um acabou resolvendo o assunto à sua maneira,
uns encontraram um “novo alguém” para
mandar na sua vida, outros venderam a liberdade de “ser”
em troca de aprovação ou conforto, alguns
se calaram num silêncio de abandono, outros reagiram
e foram à luta... “eu, caçador de
mim”...
É preciso coragem para romper com essas estruturas
e isso acaba acontecendo um dia, num tempo que difere
para cada pessoa, mas é um processo doído,
é um acerto de contas de foro íntimo, um
resgate da própria essência que fomos permitindo
que se corrompesse.
Penso que foi assim que nos perdemos, de uma maneira lenta,
quase imperceptível. Foram arbitrando em nossa
vida e nós fomos permitindo. As razões são
diversas, mas permitimos. Ficamos “certinhos”
por fora e rasgados por dentro.
Onde foi que me perdi de mim? A pergunta é tão
abrangente que seria tema de livro... um livro que ainda
pretendo escrever, contando os desencontros que vivi e
os desencontros que partilharam comigo, neste longo caminho
em busca do autoconhecimento.
Um livro que conte a história de todos os encontros
que foram possíveis com o despertar da consciência,
de todos os universos que se abriram a partir do momento
em que se abriu a possibilidade de saber quem somos e
a que viemos...
Garanto que vale a pena, vivi e presenciei verdadeiros
salvamentos humanos, pois a felicidade que advém
dessa conquista é tão genuína, é
tão grandiosa, que abre um novo mundo à
nossa frente, um mundo que vale a pena ser vivido, cheio
de esperança, fé e poder de transformação.
Onde foi que me perdi de mim? Talvez não identifiquemos
o local, nem o momento, mas isso não tem importância:
o despertar para a pergunta já é um início
de encontro, um encontro com você! |