Conheci uma pessoa muito simples e muito amorosa,
mas o sofrimento pelo qual passou fez com que ela se afastasse
tanto de sua essência, que ela se esqueceu de como
era... Esqueceu os sentimentos que valorizou a vida toda,
seu jeito espontâneo, suas características
marcantes de transmitir fé e esperança.
Esqueceu-se do próprio valor. E, como não
achava mais essa riqueza dentro de si, ela começou
a usar coisas de valor fora de si... cobriu-se de jóias,
“grifes”, pedras preciosas, tudo muito chique.
Esta foi a sua escolha na dor: olhar pra fora. Os valores
externos davam importância e significado à
sua existência. Que pena! Se ela tivesse olhado
para dentro, apesar da dor, ela encontraria aquele ser
grandioso que era, e que, forjado naquele sofrimento,
renasceria ainda maior.
Ela sonhou com a auto-importância e esqueceu de
“se” dar importância. E fez isso tantas
vezes e, por tanto tempo, que hoje a máscara tomou
conta dela... Ela não sabe mais quem é,
nem onde ficou. Só existe a máscara. Ela
não se lembra mais de como é ser ela mesma...
Por quê? Porque tinha medo, medo de ser simples,
medo de não ser amada... Esqueceu-se que era a
maior especialista em ser ela mesma e que sua genuinidade
era um oásis na vida das pessoas que circulavam
ao seu redor. Esqueceu de olhar para dentro, de partilhar
o que sentia, porque esqueceu que sempre fora amada por
ser assim.
A dor poderia ter sido sua mestra, mas ela escolheu o
caminho da cegueira, porque este parecia mais fácil.
Parecia, e de fato era, momentaneamente, mas ele tinha
um preço, esse caminho jamais poderia trazê-la
de volta para si.
O que movimenta a vida das pessoas é a energia
da intenção, e quanto mais clara a intenção,
mais rápido se materializa o sonho. Por que sonhamos
em ser seguros, quando a nossa insegurança nos
aproxima mais do outro?
Observe o que acontece quando você mostra o seu
lado fraco, suas ansiedades, seus descaminhos, como as
pessoas se aproximam ainda mais e têm coragem de
demonstrar o seu amor. Elas se identificam com esse abandono,
elas se sentem iguais.
Às vezes falta-nos essa confiança... “fazemos
um tipo” seguro e bem-sucedido para que as pessoas
nos amem, mas, por incrível que pareça,
é quando mostramos nossa vulnerabilidade que as
pessoas se aproximam ainda mais, e verdadeiramente demonstram
seu amor.
Ora, por que, então, nos esforçamos tanto
para sermos campeões? O pódio é solitário,
a busca da perfeição nos distancia de todos...
Deixar que o sofrimento transite em nossa vida faz com
que ele passe logo. Aquilo que resistimos em aceitar acaba
nos fazendo companhia por muito tempo...
Aceitar a nossa humanidade abre um espaço novo
para o amor e a cumplicidade. Basta não dissimular
os sentimentos, não entrar no jogo, não
ter vergonha de negar e não ter receio de dizer
sim. Basta treinar os olhos para “se ver”,
os ouvidos para “se ouvir” e ter coragem de
falar a voz do coração.
Essa transparência, essa ética espiritual,
ilumina o nosso caminho e reflete um clarão na
estrada daqueles que nos circundam. É uma volta
à inocência esquecida, uma simplicidade aconchegante
que abre os braços, acolhe e nos salva da solidão. |