Venho buscando nas palavras uma forma de expressão
para o que você representou na minha vida. Tento
caminhos novos, busco metáforas, mas, quando
olho para o meu coração, tudo me parece
pequeno, tudo me parece pouco.
Eu queria contar pro mundo como você me ensinou
coisas, mas as coisas se entrelaçam de tal forma,
que me perco nas lembranças...
Amigo querido, o poder com o qual você me revestiu,
permitiu que eu fosse livre e consciente para sonhar
qualquer sonho, sem limites nem reservas.
Você me ensinou que eu era um ser completo e,
quando eu fazia coisas que só os meninos faziam,
você me orientava naturalmente e abria os caminhos
que o mundo fechava e as pessoas resistiam.
Foi assim que eu aprendi a consertar coisas, a gostar
de caixa de ferramentas tanto quanto de batom e de rouge.
Reformei o quarto, cortei a cama para parecer sofá,
pintei o guarda-roupa de branco e fiz instalações
elétricas que quase incendiaram a casa.
Fiz, refiz, coloquei luzes coloridas para mudar a cor
do quarto conforme meu estado de espírito. E
ele se tornava rosa, virava azul, tinha dias vermelhos
e dias mágicos.
Assim, brincando de arco-íris, fui tomando posse
dos espaços que você abria para eu crescer.
A festa de dezoito anos você não conseguiu
me oferecer, mas me ensinou a sonhar com ela e a acreditar
que eu podia fazê-la sozinha.
E fiz. Acreditei aos quinze anos que eu tinha valor
para trabalhar e ganhar igual aos meninos. E porque
você me ensinou que eu era igual, eu acreditei
e até consegui achar uma empresa que também
pensava assim... e me pagava igual!
Comecei cedo, aprendi a proteger os meus sonhos e a
tecer de realidade os mais ousados projetos.
Aprendi a amar os livros vendo-o ler enciclopédias.
Você foi a única pessoa que eu vi se distrair
lendo enciclopédias...
Desde criança aprendi que o meu pensamento tinha
poder, porque você me dizia que na minha cabeça
eu podia tudo.
Tínhamos limites, a vida era difícil,
muito trabalho, pouco dinheiro, mas eu podia tudo mesmo!
Pai, a maior lição que você me ensinou
foi a lição da vida. Aprendi acerca da
ousadia dos sonhos, a igualdade dos seres, o amor à
liberdade, e o olhar generoso sobre aqueles que não
acreditavam tanto ou não tinham as mesmas chances
que eu.
Muitas foram as vezes em que assisti você dividir
o pouco que tinha, porque, dentre todos, você
era o que mais tinha.
Vi e revi você oferecer ajuda, emprestar sem receber
e, apesar disto, emprestar de novo. Porque a sua justiça
não era deste mundo, a sua ética vinha
de Deus. Você oferecia ajuda porque achava que
quem tem mais, dá mais..., assim, naturalmente...
Dava e tinha prazer em dar, se regozijava em ser útil.
E esse Deus de quem vinham as suas inspirações,
lhe protegia, porque você sempre conseguia chegar
lá. O seu pouco virava muito e sobrava para dividir.
A sua fé e a sua alma prenha de esperanças
contagiavam quem cruzasse o seu caminho. No dia da sua
partida, essa gente amiga e até alguns desconhecidos
vieram agradecer e falar do amor que você espalhou.
Eu estava sozinha naquele lugar frio, olhar perdido
no espaço, assistindo a morte arrancar de nossas
vidas uma pessoa tão querida, quando ali chegou
um homem de terno marrom, cabelos pretos e olhos vermelhos
marejados. Não sabia o seu nome, mas ele foi
o primeiro a chegar, me deu a mão e me perguntou
se eu era a filha. Quando assenti, seus olhos transbordaram,
a emoção cortou a voz e ele só
conseguiu menear a cabeça dizendo:
-“Não, não vá......vim prestar
minha homenagem àquele homem que me ensinou tanto,
me ajudou muito, há trinta anos, em um momento
difícil da minha vida. Eu era apenas um corretor
a seu serviço, mas ele me enxergou e me fez sentir
que eu era importante... Deu opiniões e conselhos
como seu eu fosse seu filho, seu irmão. Quando
recebi a notícia, vim correndo fazer a única
coisa que eu poderia: agradecer e prestar a minha última
homenagem ao meu amigo.”
E, naquele momento, nós nos abraçamos,
eu e o homem de terno marrom, e choramos juntos, porque
eu sabia exatamente do que ele falava.
Ele era uma das testemunhas daquele amor e chorava feito
uma criança que perdia “o pai”. Ele,
muitas pessoas presentes, e outras tantas que não
conseguiram ali chegar, se despediam de um grande homem.
No meu coração, revi os melhores momentos
de nossas vidas e agradeci por ter nascido sua filha.
Agradeci por ter tido oportunidade de conviver com sua
alma tão sábia e tão amorosa.
Em algum lugar do Universo, em uma outra dimensão,
sei que você está escutando as minhas palavras.
Eu não me sinto órfã, pai querido.
Sua lembrança é indelével e sua
presença ficou entre nós, em cada gesto,
em cada palavra, em todas as coisas lindas que você
criou, amou e escolheu partilhar livremente.
Obrigada, pai, por ter me dado a vida e tê-la
guardado de uma maneira tão especial. Meu anjo
da guarda tem a sua cara, riso aberto... olhos transparentes...
Foi com essa mesma transparência que uma amiga
se despediu de mim ali, dizendo: “Hoje tem festa
no Céu!
Aquela frase acalmou meu coração. Com
certeza, tinha festa no céu!
E esta foi a única festa da sua vida que você
fez questão de não me convidar.
Sua filha.