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Neste
mês temos a honra de contar, nesta coluna, com a
participação da professora Lucrécia
Anchieschi Gomes, cujo valoroso currículo dispensa
qualquer apresentação.
Neusa Antunes |
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Mulheres
Arrojadas
Por Lucrécia Anchieschi Gomes
“No século XVIII marido e mulher trabalhavam
lado a lado na terra, no mercado, ajudados pelos filhos.
Cinquenta anos depois, o mundo se divide em duas esferas
heterogêneas, que não se comunicam mais:
a esfera privada do lar, regida pela mãe e a esfera
pública e profissional, reino exclusivo dos homens”.
(Elisabeth Badinter “Sobre a Identidade Masculina”,
Rio de Janeiro, 1993, p. 88).
Acabamos de festejar os 100 Anos do Dia Internacional
da Mulher concebido que fora, quando, em Conferência
Internacional na Dinamarca, em 1910, decidiram-se homenagear
mulheres, funcionárias de uma fábrica em
Nova York, brutalmente assassinadas (1857) por fazerem
greve reivindicando melhores condições de
trabalho, diminuição da jornada e salários
iguais aos dos homens. Reprimidas dentro da fábrica
incendiada, 130 tecelãs foram carbonizadas. |
Dorina
Nowill |
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O Dia Internacional da Mulher, oficializada pela ONU
– Organização das Nações
Unidas em 1975, vem se notabilizando por debates, conferências,
reuniões e discussões sobre o papel da
mulher na sociedade atual.
Desde a criação do Dia Internacional da
Mulher muita coisa mudou: das reivindicações
do filósofo francês Condorcet em 1788,
que exigia a participação política,
emprego e educação para as mulheres até
a conquista do direito de votar e de serem eleitas para
cargos no executivo e legislativo o que, no Brasil,
só se deu em 1932.
A trilogia ideológica que embalou os movimentos
revolucionários do século XVIII –
Liberdade, Igualdade e Fraternidade - ainda alimenta
os ideais de luta das mulheres. Até o início
do século XIX, ensino e currículo educacional
eram distintos nas escolas masculinas, demonstrando
que a lei tentou igualar direitos, mas a prática
e as relações que se constroem em torno
dela, perpetuam as diferenças visíveis
no campo profissional e nas possibilidades jurídicas
de autonomia para a mulher.
Acreditamos que a construção do conceito
de cidadania como o proposto pela trilogia ideológica
francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade - constituiu-se
num engano para as mulheres que jamais puderam exercitar
em plenitude a sua cidadania. Este pressuposto pode
ser ilustrado pela pequena amostra da participação
feminina na ocupação de cargos de poder
como Presidência da República, Tribunais
Superiores, Suprema Corte no Brasil dentre outros.
O Artigo 5º da Constituição Federal,
que diz “Todos são iguais perante a Lei,
sem distinção de qualquer natureza”
já seria suficiente para quebrar qualquer tentativa
de violação ao princípio da igualdade,
reforçado que é pelo inciso I em que se
lê “homens e mulheres são iguais
em direitos e obrigações, nos termos desta
Constituição”.
O inciso III do Artigo 7º Direitos Sociais proíbe
“... diferença de salários, de exercício
de funções e de critério de admissão
por motivo de sexo, idade cor ou estado civil”.
A História da Filosofia nos apresenta mulheres
mundialmente notáveis cujos trabalhos, por questões
culturais, não foram reconhecidos.
Nos séculos VII a I a.C. destacamos a poetisa
e educadora Safo de Lesbos; a matemática e filósofa
grega Theano no ano 546 a.C. que fora aluna de Pitágoras;
Maria, a judia no Século I a.C. que viveu em
Alexandria, seguidora do culto de Isis, considerada
fundadora da alquimia.
Nos anos 293 a 270 a.C. destacamos Asioteia de Filos,
que ensinava física na Academia de Platão
ao lado de outras mulheres.
Hipácia de Alexandria no ano 415 d.C. cultivou
as matemáticas e a filosofia; manteve viva a
chama do pensamento helênico numa Alexandria dilacerada
pelas lutas religiosas. Foi brutalmente assassinada
por multidão de fanáticos cristãos.
Entre os séculos V a XIV destacam-se Catalina
de Siena (1347 a 1380), que liderou uma comunidade heterodoxa
de homens e mulheres e fora considerada a última
reformadora religiosa do período medieval. Escreveu
“Diálogo da Doutrina Divina”.
Destaque também para a terapeuta Hildegarda de
Bigen (1098 a 1179), que produziu vasta obra de ciência
natural, astronomia e medicina. Menção
também à Cristina de Pizan (1365 a 1431),
cuja obra “A Cidade das Mulheres” fora escrita
em 1405 e questiona a autoridade masculina e faz frente
às acusações e insultos contra
mulheres.
Na Idade Moderna nossa distinção a Louise
Labé (1524 a 1566) francesa erudita, musicista
e autora do “Debate entre a Loucura e o Amor”.
Mary Wollstonecraft (1739 a 1797) escreveu em 1792 o
tratado político-filosófico intitulado
“A Reivindicação dos Direitos das
Mulheres”.
Olímpia de Gouges (1748 a 1793) produziu peças
de teatro e novelas e foi presa por questionar a escravidão
dos negros e defender oprimidos. Antes de morrer na
guilhotina em 1793, publicou obras importantes como
“Carta ao Povo”, “Os Direitos da Mulher
e Cidadã”, além de outras.
Na Idade Contemporânea, séculos IX a XX,
destaca-se Rosa de Luxemburgo (1871 a 1919); assassinada
em uma prisão alemã, participou à
esquerda do Partido Social Democrata Polonês e
do III Congresso Internacional Socialista. Escreveu
“A Revolução Russa” e “Acumulação
do Capital”.
Edith Stein (1891 a 1942), tradutora de obras de Tomás
de Aquino. Interessou-se pela questão feminina
no campo filosófico e religioso, publicando “Ethos”
sobre profissões femininas e morreu na câmara
de gás em Auschwitz em 1942.
Outra grande mulher Annah Arendt (1906 a 1975), que
a partir da obra “As origens do Totalitarismo”
inicia uma reflexão dos acontecimentos de sua
época, pensa de um jeito novo a política
e critica a tradução filosófica
de seu tempo. Publicou “A Condição
Humana”, “Entre o Passado e o Futuro”
e “Crises da República”.
Nosso destaque especial para Simone de Beauvoir, nascida
em 1908, ícone do Movimento Feminista e autora
de “O Segundo Sexo”. Morreu em 1986.
A brasileira Dorina Nowill, pronta a completar em junho
próximo os seus 91 anos de idade, escreveu as
primeiras páginas da história da inclusão
dos deficientes visuais no Brasil. Cega aos 17 anos
por causa de uma patologia ocular cuja doença
em vez de derrotá-la transformou-a numa guerreira,
criou a Fundação para o Livro do Cego
no Brasil, que produz livros no Sistema Braille. Trabalhou
com organizações mundiais de cegos em
órgãos da ONU, onde representa o Brasil.
São muitas as mulheres reconhecidas pelos seus
feitos: Indira Gandhi, Madre Teresa de Calcutá,
Evita Peron, Chiquinha Gonzaga e Maria Bonita.
A luta da mulher pela conquista do espaço público
na tentativa de sair da subordinação e
da independência pode ser ilustrada em fato recente
ocorrido na eleição de 2006. A jovem Manuela
Pinto Vieira D`Ávila, do Centro Acadêmico
Estudantil, eleita Deputada Federal aos 25 anos de idade
no Rio Grande do Sul, fora constrangida pela imprensa.
Ao deparar com manchetes do tipo “Musa do Congresso
vê beleza com desdém”, reclamara
de uma imprensa que só via beleza, glamour
e simpatia em vez de deter-se à sua cansativa
campanha nas dezenas de municípios levando suas
propostas políticas. Por que não citar
que fora a maior votação que uma mulher
obteve na história do Estado e a maior do Brasil
naquela eleição?
“Por que não escreveram eles, o que eu
dissera sobre política, projetos, ações?
Por que não dizer como pode ser legal num País
com tanta desesperança, uma jovem sem sobrenome
conhecido sair do movimento estudantil e chegar ao Congresso
Nacional?” (Revista Nova, julho 2008, p. 72)
Na I Conferência Nacional de Comunicação
realizada em dezembro de 2009 em Brasília, propostas
foram elencadas assegurando o direito da mulher:
- respeito aos direitos autorais da mulher;
- criação de programas educativos que
abordem os direitos da mulher;
- criação de mecanismos de fiscalização
com ações punitivas para emissoras de
rádio e televisão que veiculem conteúdos
desvalorizando a mulher;
- garantia da participação de mulheres
nos conselhos de comunicação social;
- criação de legislação
que proteja a imagem da mulher.
As conquistas são paulatinas e a mulher não
desiste, porque desesperançar é tornar
impossível uma revolução pacífica.
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Professora Lucrécia Anchieschi Gomes
- Coordenadora Político-Pedagógica
da Policidadania
- Membro da Comissão Executiva do Movimento de
Combate à Corrupção Eleitoral do
Estado de São Paulo
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