A mulher!
 
 
Neste ano de 2009 tenho o privilégio, por meio desta conceituada revista, de poder somar minha esperança à de todos vocês: oferecer aos mais novos um País que nós esperamos e no qual acreditamos.

Pertenço a uma geração que cresceu embalada pelo sonho de um Brasil que fosse ao mesmo tempo democrático, desenvolvido, livre e justo.

Atualmente este é o grande desafio da nossa sociedade e, a Libra (Liga das Mulheres Eleitoras do Brasil) traduz muito bem essa responsabilidade social, pois está justamente ancorada na construção de cidadania embasada na informação e na educação.

No mês em que é comemorado o Dia Internacional da Mulher, em minha opinião, não há tema mais importante para ser abordado por nós mulheres do que:

A mulher Maria da Penha

O Brasil era um outro País no início dos anos 80...

Figueiredo no lugar de Lula, a mania de palavras em inglês já tinha chegado, Zico e Sócrates vestiam a camisa da seleção brasileira. Na TV, a minissérie, “Quem ama não mata” discutia o assunto que, ainda hoje sem solução, ocupa as páginas dos jornais: a violência contra a mulher.

Talvez Maria da Penha tenha acompanhado pela TV, lá em 1982, a história de Jorge e Alice, que formavam o casal da história exibida pela minissérie “Quem ama não mata” (mais de 25 anos depois, posso contar o final: Jorge dá um tiro em Alice no fim de quem ama...). Um ano após a televisão ter chamado a atenção para o fato é que Maria da Penha foi baleada pelo seu próprio marido, como na minissérie. Certamente, não imaginou que um dia seria protagonista de sua própria tragédia passional.

Ela ainda não era nome de lei, a Lei 11340, a Lei Maria da Penha, que, desde 2006, coíbe a violência doméstica contra a mulher e pune com mais rigor os agressores.

Não, Maria da Penha morava em Fortaleza, havia se formado em Bioquímica e se casado com Marco Antonio Viveros, com quem tinha três filhas.

Aquilo que começou com alterações de humor logo evoluiu para violência verbal e, então, descambou para agressões físicas.

Quem ama não xinga, não bate, não humilha, não....

Mas xingar, bater e humilhar para Marcos era pouco. Numa noite, enquanto a mulher dormia, ele deu um tiro nas costas de Maria da Penha, que, contra as probabilidades, sobreviveu e ficou paraplégica.

De volta para casa, depois de algumas cirurgias e ainda acreditando que o tiro fora disparado por bandidos, sofreu outra tentativa de assassinato.

Dessa vez, Marcos tentou eletrocutar a mulher no chuveiro elétrico, garantindo lugar no hall da infâmia, ao lado de Doca Street, Lindomar Castilho, Pimenta Neves e, mais recentemente, Lindemberg Fernandes.

Maria da Penha virou símbolo de um País que não respeita as mulheres. Contra todas as evidências, o processo judicial rastejou por anos, até quase prescrever.

Foi preciso recorrer à comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, que condenou o Estado do Ceará a pagar uma indenização a ela, por ter sido incapaz de punir o criminoso.

Apenas em 2002, quase 20 anos após o tiro, Marcos foi condenado a dez anos de prisão. Cumpriu menos de um terço da pena e voltou à liberdade. O Estado do Ceará finalmente, agora em julho, 25 anos após o tiro, pagou a indenização que devia: R$ 60 mil.

Maria da Penha segue lutando contra o desrespeito aos direitos da mulher.

No Brasil, a cada 15 segundos uma mulher é agredida. Na maioria das vezes, esta violência não é denunciada seja por vergonha ou por medo.

A Lei 11340, vigente há dois anos, conhecida como Lei Maria da Penha, como já informado, caracteriza a violência doméstica dessa forma: física, psicológica, sexual, moral e patrimonial; protege a vítima, afastando o agressor de casa; prevê reeducação para ele e apoio para os filhos.

Outro aspecto importantíssimo a ser ressaltado é que, com a Lei, a violência doméstica passou a ser definida como forma de violação dos direitos humanos. Antes, o caso era tratado no juizado criminal como briga de trânsito, sem considerar relação afetiva e, o réu pagava o crime com cestas básicas.

A Lei cria juizados com competência criminal e cível, arbitra sobre separação e guarda dos filhos, atenderão as vítimas de violência doméstica, facilitando e agilizando assim o processo. A intenção é de que o agressor seja punido e a vítima tenha seus direitos garantidos com mais celeridade. Infelizmente estes juizados estão demorando para entrar em funcionamento.

Vamos exigir do Estado o que nos é de direito! Vale ressaltar ainda, que a Lei Maria da Penha, além de inovar no conceito de família, também, rompe com a dicotomia público/privado evidenciada pelo antigo ditado “em briga de marido e mulher, ninguém bota a colher”.

O espaço doméstico que estava destinado exclusivamente à mulher era inatingível. Isto gerou um sentimento de impunidade pela violência doméstica, como se o que acontecesse dentro de casa não interessasse a ninguém.

A autoridade do marido, nos moldes da família patriarcal, permitia o direito de dispor do corpo, da saúde e até da vida da sua esposa. Essa autoridade do homem/marido sempre foi respeitada de forma que a justiça parava na porta do lar e, a polícia sequer podia prender o agressor em flagrante.

Podemos dizer que nossa legislação avançou em relação a outros países, mas precisamos que o Estado crie mais condições específicas para atendimento das vítimas, como mecanismos de infra-estrutura para sua efetiva aplicação e implementação.

Igualdade, oportunidade, dignidade e cidadania são palavras que definem o objetivo que almejamos e retratam a mulher que dá nome à Lei. A Lei Maria da Penha precisa ganhar mais vozes...

Não deixem de informar a todos sobre esses direitos. A sua participação como cidadão é muito importante!

Eu acredito, meus queridos, que a perspectiva de um mundo melhor começa pelo o que podemos fazer hoje. De que forma? Apoiando ações que se estendem à sociedade para fortalecer tanto a mulher como a comunidade em que ela vive.

Como advogada, esposa, mãe e mulher, tenho a obrigação de combater a violência na extensão da palavra.

A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres colocou à disposição um número de telefone para denunciar a violência doméstica e orientar o atendimento. O número é 180, o qual já está recebendo três mil ligações por dia.

Também está disponível o número abaixo que faz parte da Campanha Denuncie a Violência.
 
 
Finalizo citando uma frase cantada por Beto Guedes, na Canção Sal da Terra: “um mais um é sempre mais que dois”.