O estresse: entre a fisiologia e a psique

Por Rubens Villela*

Todos sabemos, por experiência própria, que estar estressado não é o mesmo que estar cansado. Se estamos cansados, logo pegamos no sono e, dormindo, nos restabelecemos; se estamos estressados, porém, é diferente, muitas vezes nem conseguimos dormir...

A palavra estresse vem do inglês, em que stress significa “esticar”. Em engenharia, “resistência ao stress” significa “resistência a tensão”. O termo foi transposto para a biologia pelo endocrinologista Hans Seyle e veio a designar um estado no qual o organismo é levado seguidamente a seu limite, com consequências para a sua fisiologia.
 
Selye, durante seus estudos sobre o stress, descreveu uma síndrome que primeiramente observou nos seres humanos e, mais tarde, percebeu ser comum a uma grande quantidade de animais: a síndrome geral de adaptação - um conjunto de reações do organismo ao desequilíbrio, hoje famoso por fazer a ligação entre as condições da vida (ambiente) e o aparecimento do estresse.

Esta síndrome pode ser dividida em três fases bem distintas:

I - Fase de alarme:
ao aparecimento de uma “ameaça” segue um comando para a glândula supra-renal que libera os hormônios adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea, preparando o organismo para reagir:

- aumentam os glóbulos vermelhos;
- aumenta o nível de açúcar no sangue;
- aumentam os batimentos cardíacos.

II – Fase de resistência:
se a “ameaça” não cessa, segue-se uma fase de hiperatividade da glândula supra-renal, provocando:

- atrofia do baço e das estruturas linfáticas;
- diminuição dos níveis de endorfina e serotonina, levando, entre outras coisas, a mal-estares, dores crônicas e problemas de pele.

III – Fase de exaustão:
se a “ameaça” persiste, o organismo começa a ter dificuldade para manter o sistema, que começa a falhar:

- as “reservas” começam a ser consumidas;
- ocorrem retornos cada vez mais frequentes à fase de alarme (hiper-reatividade crescente);
- surgem disfunções crescentes nos sistemas corporais e desorganização celular.

Isto provoca a excessiva presença de hormônios (principalmente o cortisol) na corrente sanguínea, causando desequilíbrios que tendem a se tornar crônicos, como:

- desregulação da pressão e frequência cardíacas;
- desbalanceamento dos níveis de açúcar no sangue;
- diminuição da eficiência do sistema imunológico;
- mal funcionamento da tireóide;
- diminuição das funções cognitivas;
- diminuição da densidade dos ossos;
- fragilidade das fibras musculares;
- diminuição das respostas a inflamações;
- aumento da gordura abdominal, associada a aumento do colesterol ruim;
- diminuição crônica dos níveis de endorfina e serotonina.

Estes desequilíbrios, com o tempo, provocam doenças, tais como:

- desregulação do funcionamento cardíaco e dos níveis de colesterol ruim, que pode levar a infarto e a outros males do coração;
- fragilidade das fibras musculares, que afeta:
- nos intestinos, os movimentos peristálticos, levando a constipação e agravando diverticulite e outras doenças;
- no sistema respiratório pode provocar asma e bronquite.
- a hiper-reatividade do sistema imunológico agrava sintomas da asma e de outras alergias;
- a falta de sintonia entre hipotálamo, hipófise e supra-renal provoca desregulação do sistema imunológico, provocando doenças auto-imunes como diabetes tipo I, distúrbios da tireóide, lúpus;
- a mucosa frágil fica suscetível a ataque de ácidos e enzimas tornando o estômago e os intestinos propensos a ulcerações.

Desta forma, fica mais fácil entender o aumento dos casos de doenças, antes características de idosos, executivos, ou, muitas vezes, de pessoas muito jovens. O estilo de vida atual e a pressão cada vez maior por resultados acabam representando, para as pessoas envolvidas, uma fonte de ameaças (medos) constantes, por exemplo:

- não corresponder ao que dele se espera e perder o emprego;
- parecer fraco ou incompetente;
- decepcionar-se consigo mesmo e decepcionar as pessoas;
- ficar sem dinheiro para pagar as contas;
- descer o padrão de vida...

Estes fatores levam, frequentemente, a se atingir a fase de exaustão, muitas vezes sem que se dê conta. Por isto, é muito importante desenvolver o autoconhecimento suficiente para perceber-se, poder tomar providências e mudar atitudes de modo a evitar chegar a níveis de pressão que o coloquem sob risco.

É possível fazer isso? Agir preventivamente? É, sim; e isto é muito importante.

* Rubens Villela é psicanalista, fundador e diretor clínico da Lotuslife Desenvolvimento Humano, onde elabora e aplica programas para qualidade de vida e no trabalho.
     
 













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