Doenças mentais em evidência

Por Andrea Santos Moreale*
 
 
Temos acompanhado, no horário nobre da TV Globo, novela Caminho das Índias, a ênfase que se tem dado à esquizofrenia (pelo personagem Tarso), o que acabou despertando no público em geral um interesse maior de saber um pouco mais sobre esta doença que, apesar de ser do conhecimento de poucos, atinge cerca de 1% da população.

No Brasil, no começo do Século 21, a porcentagem de 1% representava 1,8 milhões de indivíduos acometidos pela doença, o que significa mais que a população de muitas cidades grandes. Esta mesma porcentagem de 1% alcança uma dimensão muito maior quando se considera a quantidade de pessoas envolvidas em decorrência da doença do paciente.

Este assunto vem ganhando espaço em debates tanto nos meios de comunicação quanto em conversas entre amigos, porém, é de extrema importância entender o comportamento expresso pelos portadores desta doença, para desmistificar o tratamento preconceituoso que esta e outras doenças mentais receberam, sendo consideradas e tratadas durante muito tempo como “loucura”.
 
 

Vale ressaltar que, além do paciente, há o envolvimento dos familiares e dos amigos, que sofrem emocionalmente diante da situação e que também necessitam de nosso acolhimento. É sabido, hoje, que estes pacientes, quando adequadamente diagnosticados e tratados, convivem normalmente com a comunidade, perfeitamente integrados na sociedade, e podem levar uma vida como a de qualquer outra pessoa: construindo uma família, trabalhando, passeando.

Mas, afinal, no que consiste esta doença?

Trata-se de uma doença crônica e marcada por alucinações, de fundo persecutório e auditivo, que causam dissociação do pensamento fazendo com que o paciente acredite que está sendo perseguido, que estão roubando suas idéias ou pensamentos. São delírios que acabam provocando perda da distinção entre imaginação e realidade, além de alterações da afetividade, diminuição da motivação, sintomas motores entre outros. Também costuma atingir a capacidade de julgamento, a linguagem - a comunicação - e a capacidade de atenção.

A medicina ainda não sabe como prevenir o surgimento da doença e tampouco como detectar uma causa definida para a patologia, mas, com os tratamentos atuais, é possível chegar a um controle bastante satisfatório.

O que se sabe até então é que há fatores biológicos, sociais e psicológicos envolvidos no seu desencadeamento, tais como abandono, relações conflituosas, agressões e abusos sexuais, assim como problemas familiares.

 
 

A esquizofrenia, em geral, aparece na adolescência ou no começo da idade adulta, ou seja, entre 15 e 25 anos, porém, também pode haver casos em que poderá se manifestar até por volta dos 40 anos de idade. Com frequência, a doença se instala gradualmente, ao longo de semanas ou meses, sendo que as manifestações começam de modo discreto e imperceptível, agravando-se com o decorrer do tempo.

A descoberta da doença não é nada fácil, pois o diagnóstico dependerá de uma minuciosa conversa com o doente e seus familiares. A avaliação psiquiátrica detalhada é fundamental. Muitas vezes o maior problema é convencer o próprio paciente e seus familiares da necessidade de procurar um psiquiatra, pois ainda existem um enorme preconceito e um difícil processo de aceitação. Porém, quanto mais tardio for o diagnóstico, mais difícil será o controle da doença. Não se pode desperdiçar a chance de proceder a uma intervenção precoce. O tratamento é feito com remédios, trabalhos psicológicos e atividades complementares que visam à ressocialização deste paciente, como nas oficinas de pintura e de música, no intuito de controlar e reduzir os sintomas e prevenir novos surtos, da mesma maneira como, por exemplo, se controla o diabetes, possibilitando que a pessoa tenha uma vida normal.

Engana-se quem pensa que o paciente esquizofrênico tem que permanecer internado e afastado do convívio social durante toda a vida. A internação somente deverá ocorrer em casos extremos e pelo menor tempo possível.

*Andrea Santos Moreale é psicóloga e responsável técnica e administrativa da Psico Alpha Clínica de Psicologia.

 
 






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