Economia no esgoto
 
 
Vista do Rio Barueri-Mirim, na década de 1970, no Centro de Barueri
 
Vista noturna do Bulevar Central, sobre o trecho tamponado do rio, em 2009
 

Lá por volta de 1952 ainda se pescava bastante nos rios e lagoas da nossa região. Lembro-me perfeitamente: na avenida, como era chamada a Avenida D. Pedro, no centro de Barueri, que ainda preserva parte de seu trecho, várias residências davam fundos para o Rio Barueri, que passava bastante sinuoso pelo local e formava uma pequena várzea. Nessa época, não tenho certeza, mas acredito que todas as residências eram servidas por água de poços comuns cavados nos quintais e observavam uma distância prudente das fossas negras nas quais eram depositados os esgotos sanitários.

No centro de Barueri havia uma ponte que transpunha o rio ligando o largo com a subida da Campos Salles. Era uma ponte de madeira e era comum ver várias pessoas sobre ela lançando suas varas à cata dos peixes que eram comuns no nosso rio. Já há muito tempo o rio foi retificado, assim como o Tietê, esse mesmo que divide as terras de Alphaville.

Como não podia deixar de ser, era um rio piscoso e sinuoso. Formava também as famosas várzeas as quais são perceptíveis até a região da Aldeia de Barueri. A partir daí, o rio entra em uma região mais montanhosa e as várzeas não ocorrem mais e vai assim até a altura de Itu. O rio dos bandeirantes, que tanto serviu à pátria, teve sua glória em passado não tão distante. Saudosismo de lado, ainda resistem em São Paulo os clubes Espéria e Tietê.

Vamos um pouco mais à frente: Piracicaba. Cerca de 160 km da capital e você nem percebe, a menos das inúmeras paradas para alimentar os pedágios. Mas a estrada é realmente de primeira. A origem do nome da cidade é “lugar onde o peixe pára”, em alusão ao desnível da cachoeira na qual os peixes “paravam” literalmente, a fim de transpor o obstáculo na época da piracema. Hoje, quem frequenta a Rua do Porto* se delicia com os peixes servidos em seus inúmeros restaurantes. É uma multidão de pessoas que se rende às delicias dos peixes e ao imperdível cuscuz que faz uma irreparável companhia aos assados.

Mas, lembre-se: os peixes não são de lá. Os tempos mudaram, evidentemente. A água que se usa em casa não vem mais das minas e dos poços. O esgoto não vai mais para as fossas negras. Os rios, embora retificados, transbordam mais que antigamente. Não formam mais várzeas. Engolem, ou melhor, afogam as casas. A população paga caro por isso. Indiretamente, por meio dos incontáveis impostos; e diretamente, porque paga por uma água de qualidade questionável pelo seu gosto.

Na escola todos aprenderam que água é incolor, inodora e insípida. A população da região Oeste, em cujas terras o Tietê passa carregado de toda sorte de poluentes, já está cansada de pagar por uma água na torneira, outra dos galões e outra das pets. A da torneira é paga duas vezes, uma pela entrada e outra pela saída, ou seja, a população paga também pelo esgoto que não é tratado e é lançado in natura no Rio Tietê. Até quando haverá paciência para tantos desmandos?

Felizmente, está ocorrendo uma discussão mais acirrada sobre o assunto envolvendo os prefeitos da região e a Sabesp, atiçados pela rede Globo. Os prefeitos têm falado alto e espera-se que aumentem o tom de voz, porque nem mesmo a usina de tratamento de Barueri opera normalmente, e é a maior das três que existem na região metropolitana. Enquanto as contas d´água forem pagas da forma que estão sendo, e o esgoto for lançado no rio, fica claro que nossa economia está indo literalmente para o esgoto.

*Na Rua do Porto, às margens do rio Piracicaba, funcionou desde 1887 a primeira estação de captação e bombeamento de água da cidade, que usava o próprio desnível e a força do rio para girar as bombas que abasteciam a parte mais alta da cidade. O prédio principal virou o Museu da Água.

Em Santana de Parnaíba, até poucos anos atrás, a água que abastecia o centro da cidade descia por gravidade das bandas da Aldeia da Serra e, consta, não era cobrada.


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