Lá por volta de 1952 ainda se pescava bastante
nos rios e lagoas da nossa região. Lembro-me
perfeitamente: na avenida, como era chamada a Avenida
D. Pedro, no centro de Barueri, que ainda preserva parte
de seu trecho, várias residências davam
fundos para o Rio Barueri, que passava bastante sinuoso
pelo local e formava uma pequena várzea. Nessa
época, não tenho certeza, mas acredito
que todas as residências eram servidas por água
de poços comuns cavados nos quintais e observavam
uma distância prudente das fossas negras nas quais
eram depositados os esgotos sanitários.
No centro de Barueri havia uma ponte que transpunha
o rio ligando o largo com a subida da Campos Salles.
Era uma ponte de madeira e era comum ver várias
pessoas sobre ela lançando suas varas à
cata dos peixes que eram comuns no nosso rio. Já
há muito tempo o rio foi retificado, assim como
o Tietê, esse mesmo que divide as terras de Alphaville.
Como não podia deixar de ser, era um rio piscoso
e sinuoso. Formava também as famosas várzeas
as quais são perceptíveis até a
região da Aldeia de Barueri. A partir daí,
o rio entra em uma região mais montanhosa e as
várzeas não ocorrem mais e vai assim até
a altura de Itu. O rio dos bandeirantes, que tanto serviu
à pátria, teve sua glória em passado
não tão distante. Saudosismo de lado,
ainda resistem em São Paulo os clubes Espéria
e Tietê.
Vamos um pouco mais à frente: Piracicaba. Cerca
de 160 km da capital e você nem percebe, a menos
das inúmeras paradas para alimentar os pedágios.
Mas a estrada é realmente de primeira. A origem
do nome da cidade é “lugar onde o peixe
pára”, em alusão ao desnível
da cachoeira na qual os peixes “paravam”
literalmente, a fim de transpor o obstáculo na
época da piracema. Hoje, quem frequenta a Rua
do Porto* se delicia com os peixes servidos em seus
inúmeros restaurantes. É uma multidão
de pessoas que se rende às delicias dos peixes
e ao imperdível cuscuz que faz uma irreparável
companhia aos assados.
Mas, lembre-se: os peixes não são de lá.
Os tempos mudaram, evidentemente. A água que
se usa em casa não vem mais das minas e dos poços.
O esgoto não vai mais para as fossas negras.
Os rios, embora retificados, transbordam mais que antigamente.
Não formam mais várzeas. Engolem, ou melhor,
afogam as casas. A população paga caro
por isso. Indiretamente, por meio dos incontáveis
impostos; e diretamente, porque paga por uma água
de qualidade questionável pelo seu gosto.
Na escola todos aprenderam que água é
incolor, inodora e insípida. A população
da região Oeste, em cujas terras o Tietê
passa carregado de toda sorte de poluentes, já
está cansada de pagar por uma água na
torneira, outra dos galões e outra das pets.
A da torneira é paga duas vezes, uma pela entrada
e outra pela saída, ou seja, a população
paga também pelo esgoto que não é
tratado e é lançado in natura
no Rio Tietê. Até quando haverá
paciência para tantos desmandos?
Felizmente, está ocorrendo uma discussão
mais acirrada sobre o assunto envolvendo os prefeitos
da região e a Sabesp, atiçados pela rede
Globo. Os prefeitos têm falado alto e espera-se
que aumentem o tom de voz, porque nem mesmo a usina
de tratamento de Barueri opera normalmente, e é
a maior das três que existem na região
metropolitana. Enquanto as contas d´água
forem pagas da forma que estão sendo, e o esgoto
for lançado no rio, fica claro que nossa economia
está indo literalmente para o esgoto.
*Na Rua do Porto, às margens do rio Piracicaba,
funcionou desde 1887 a primeira estação
de captação e bombeamento de água
da cidade, que usava o próprio desnível
e a força do rio para girar as bombas que abasteciam
a parte mais alta da cidade. O prédio principal
virou o Museu da Água.
Em Santana de Parnaíba, até poucos anos
atrás, a água que abastecia o centro da
cidade descia por gravidade das bandas da Aldeia da
Serra e, consta, não era cobrada.
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