Propaganda: a alma ou a arma do negócio?

Acabei de ler Armando Levy*, através de seu livro Propaganda, a arte de gerar descrédito. Já há algum tempo que questiono a tal da propaganda, publicidade, marketing e outros nomes que se atribuem à escalada para a conquista de clientes. Lembro muito bem do tempo em que o nome mais familiar era reclame. E me parece ainda que o pequeno livro, em suas poucas páginas - apenas 105, que você acaba lendo em cerca de três horas - fez com que eu pensasse ainda mais, ou reafirmasse minhas questões ou convicções sobre o exagero das verbas destinadas a mostrar novos produtos, ou ainda fazer com que uma imagem permaneça na cabeça das pessoas.


A propaganda tem uma estreita relação entre as necessidades dos consumidores e a identificação. destas. mesmas.. necessidades
 
pelos fabricantes. E, no meio do caminho, aparecem as agências - especialistas que ficam com 20% dos valores envolvidos nas mensagens que se pretendem passar. Quanto mais verba, mais ganho. Boa parte de empresas não mantém nenhum tipo de relacionamento com seus clientes por meio da mídia impressa e televisiva. Preferem atribuir ao relacionamento direto com o usuário o sucesso de suas operações. O famoso boca a boca. Por outro lado, outras gastam milhões em propaganda todos os anos para mostrar ao público que são líderes em seus segmentos.
 

Saber se um produto e/ou serviço vem ao encontro das reais necessidades de um consumidor, efetivamente, não é tarefa fácil. Com certeza, aqueles que permanecem nos usos e costumes e de tempos em tempos recebem nova roupagem fazem crer que não perderão crédito. Você já viu propaganda de açúcar ou de sal? Mas está cheio de ver propaganda de plano de saúde e de escola. É que, tanto um como o outro, saúde e educação, virou coisa que se compra na esquina, já que boa parte dos governantes se esqueceu dessas prioridades.

Quantos produtos você já não adquiriu porque viu aquela propaganda bonita recheada do que há de melhor em mistificação? Ou de marketing? O produto é tão endeusado que não obtê-lo deixaria você como pessoa de segunda classe, de nível inferior.

Provavelmente você teve, ou conheceu alguém que teve, uma faca elétrica. Falo no passado porque estou apostando se alguém vê hoje em dia uma daquelas maravilhas na mesa do Natal cortando o peru, ou o lombo ou ainda o difícil de cortar - o pão italiano. E os contumazes vigilantes do peso, que mesmo com aquelas balanças eletrônicas que medem até nível de gordura, mantêm-se obesos apesar das sopas que emagrecem, dos chás diuréticos, dos diets e dos lights e acabam por comprar roupas mais largas a fim de que encubram o produto de seus apetites desmesurados.

Uns dias atrás quando foi anunciada a construção de mais três pistas, em cada sentido, na Marginal Tiête, uma ouvinte da CBN, respondendo ao questionamento da emissora argumentou: “botar mais pistas nas marginais é o mesmo que comprar roupa mais larga para esconder a gordura”. Pode não parecer, mas o anúncio, ou propaganda de mais faixas que certamente vão concentrar ainda mais o trânsito e piorá-lo vai ser comprada por alguém. Mais tarde, as consequências aparecerão.

Antes de terminar, cito N. H. Borden em Os efeitos econômicos da propaganda: “os anunciantes devem considerar seriamente os sentimentos do público consumidor, uma vez que tais sentimentos podem ser indicações seguras de recentes desenvolvimentos do processo de cristalização da ética comunitária”. E sobre Borden, Francesc Petit, o P da DPZ comenta: “propaganda deve ser verdadeira, informativa, comerciais testemunhais são de gosto duvidoso, produtos anunciados são melhores que a propaganda, a maioria da propaganda produzida é viciada”. Bem, deu pra notar que há controvérsias, mas quando o Procon já fala em pegadinhas na propaganda e nas letrinhas dos contratos é porque é hora de reclamar. Então reclame! Gozado, não é? Antigamente, reclame vinha antes. Agora, reclame vem depois. E reclame antes que seja depois. Você que me lê tem Speedy que eu sei. E muitas pessoas iam continuar comprando. Mas com os “reclames”, agora a Telefônica vai ter que pagar multa se vender o produto que não funciona. E quanto dinheiro foi gasto em propaganda?

*Armando Levy é jornalista formado pela Fundação Álvares Penteado-FAAP, com pós-graduação em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo – USP, pós-graduação em Gestão de Informática pela Fundação Getulio Vargas-FGV e MBA em Management, também pela FGV. Os direitos do livro são reservados à Editora FGV, o que nos deixa mais tranquilo quanto às analogias do pensar.


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