Quem já tem mais de 60 anos, passou pelo espetáculo
da bossa-nova, e comemorou o cinquentenário desta
alguns dias atrás, deve estar questionando o
porquê do título deste artigo e o que tem
a ver com os fatos atuais - as viagens. Já dizia
a letra da música do Juca Chaves, o menestrel
do Brasil para os brasileiros ou o menestrel maldito
para os políticos. Aquele que hoje está
com 70 anos, nasceu carioca, civilizou-se paulista,
agora está baiano e tem duas filhas – a
Maria Clara e a Maria Morena. “Bossa-nova
mesmo é ser presidente. Desta terra descoberta
por Cabral. Para tanto basta ser tão simplesmente.
Simpático, risonho, original. E depois desfrutar
da maravilha, de ser o presidente do Brasil. Voar da
Velha Cap prá Brasília. Ver Alvorada e
voar de volta ao Rio”. Aqui começa
nossa história de voar.
É que o presidente bossa-nova era o Dr. Juscelino
Kubitschek. Médico, militar e político
de Minas Gerais. Construiu Brasília e deu para
o mundo a cidade planejada que hoje é patrimônio
da humanidade. Até Juscelino, voar não
era tarefa mais importante para os governantes. E, JK,
como era chamado, foi o homem do avião. “Voar,
voar, voar prá bem distante. Até Versailles
onde duas mineirinhas*, valsinhas, dançam como
debutantes, interessante. Mandar parente a jato pro
dentista”. Já deu para entender que
esta história de voar não é tão
nova e provavelmente tenha se iniciado no governo de
Juscelino, 21º Presidente da República,
cujo mandato foi de 31 de janeiro de 1956 até
31 de janeiro de 1961.
Hoje a situação da escalada das viagens
aéreas que presenteia deputados, senadores, pais,
filhos, sogras, namoradas, amigos, parentes, sogros,
mães é de arrepiar. Com certeza poderá
causar um tremor em Brasília e sacudir nosso
ex-presidente no túmulo. É deputado dizendo
que não pode ficar longe da esposa no dia de
seu aniversário e vice-versa. É deputado
preconizando o fim dos casamentos – daqui a pouco
só solteiro que irá se candidatar. “Quer
dizer que agora venho a Brasília e minha mulher
fica em casa? Assim, vocês querem que eu me separe”.
É mais gente defendendo que essa prática
já vem de muito tempo, e aí até
Juca Chaves já cantava. Ou seja, se
é para o bem de todos, não diga ao povo
que nós voamos.
E tem gente mais esperta ainda que diz que só
usou as milhagens. Mas que raio de milhagem é
essa que teve origem no ato que não tem regulamentação?
Dentro do congresso existem sete operadoras de viagens.
Também dizem que foi a pressão popular
que tornou os fatos conhecidos. Estes fatos, como os
demais que a gente nunca fica sabendo, geralmente, são
descobertos pela mídia que sempre “distorce”
a realidade.
Gostaria de saber aqui, quem são aqueles que
criticam a mídia? Com certeza são os que
não são lembrados e os que, mercê
de seus deslizes, apreciariam em muito que suas mazelas
ficassem onde estavam: nos labirintos da prevaricação.
Enquanto isso, os normais continuam trabalhando e contribuindo
com os famigerados quarenta por cento de impostos que
são impostos nos produtos que consumimos. Por
metade desse valor, Tiradentes perdeu a cabeça
literalmente. Naquele tempo, a coroa portuguesa cobrava
um quinto do que aqui era produzido, ou seja, vinte
por cento. Nossos impostos continuam de há muito
os mais caros do mundo.
Mas eles vão votar o chamado projeto de resolução
cujo nome é pacote moralizador. Se se
entender que isso seja realmente moral, vale dizer que
a moral já foi há muito pro brejo. Todos
dizem que aquele que gasta muito e errado tem um saco
sem fundo... de dinheiro. Por isso é que deduzimos
que no Brasil, o buraco é bem mais embaixo.
“Almoçar com tenista campeão. E
depois também ser um bom artista, exclusivista.
Tomando com Dilermando umas aulinhas de violão.
Isso é viver como se aprova... É ser um
presidente bossa-nova”. Sou obrigado a encerrar
pensando que a bossa não é mais nova.
É bossa-velha. Precisamos mudar as bossas (?)!
* Márcia e Maria Estela, filhas de Juscelino.
- Juscelino Kubitschek de Oliveira (Diamantina, MG 12/09/1902
- Resende, RJ 22/08/ 1976) foi médico, militar
e político brasileiro. - Bossa, segundo o Dicionário
Aurelio, é aptidão, queda, pendor. Maneira
diferente de fazer alguma coisa; nova moda. - Dependendo
de confirmação, é falado que aquela
fuselagem de avião que serve de cinema em Araçariguama,
SP, foi um dos aparelhos utilizados por Juscelino. Quem
passa pela Castelo vislumbra o monumento.- A letra da
música ainda é lembrança de garoto.
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