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07/03/2017 08:37 - Atualizado em 07/03/2017 08:37
Como lidar com a perda do nosso bichinho de estimação? Especialista dá dicas!!
Katia Ramos

Os cães não são considerados os melhores amigos do homem por acaso. Presentes em muitas residências brasileiras, esses animais de estimação fazem parte da família e compartilham da maioria dos momentos de alegria e também das tristezas, como ocorre em situações de desaparecimento ou morte.

"A perda de um animal pode ser sentida por todos, independentemente da faixa etária da pessoa. Tristeza, solidão, culpa, choro fácil, mudanças no sono, falta de apetite, falta de prazer, sensação de vazio e vontade de estar com quem se foi são sintomas frequentemente experimentados diante da morte de um companheiro querido. No entanto, o sentimento de luto pode ser mais intenso e prolongado na criança", explica a médica psiquiatra Valéria Pagnin.

A criança vive desde cedo em um mundo cercado por imagens de animais, seja em contos, filmes ou em desenhos animados. Esses animais, dotados de falas e virtudes humanas, ensinam conceitos como amizade, lealdade, moral e ética. Nos EUA, cerca de 3/4 da população infantil convivem com um animal de estimação e existem mais crianças convivendo em lares com pets do que em casas com ambos os genitores.

"As crianças que convivem apenas com um genitor, assim como as que não possuem irmãos, tendem a se ligar mais a estes companheiros. No mundo real, eles são percebidos como um irmãozinho ou um amigo especial e funcionam como um importante ponto de apoio para os mais tímidos e introvertidos. Eles ensinam a ter responsabilidade, bondade, cuidado e preocupação com outro ser vivo. Mais tarde, também vão ajudar a criança a entender o ciclo da vida e a lidar com as perdas, no momento do falecimento", destaca Valéria.

Entenda como funciona o luto na perda de animais de estimação e veja dicas de como superar essa dificuldade na entrevista completa com a médica psiquiatra.

Por que algumas pessoas sentem mais e outras menos esse tipo de perda?

As pessoas que mais sentirão a perda serão aquelas que possuíam maior vínculo afetivo com o companheiro. Quanto mais forte a ligação afetiva, mais intenso será o luto. Outro ponto a ser destacado é que não existem regras sociais para o luto nestes casos, então a maioria das pessoas esconde seus sentimentos. Muitos temem a rejeição social e receiam ser considerados insanos ou frágeis. Manifestar publicamente ou não o luto é, antes de tudo, uma questão pessoal, mas com forte influência cultural. A nossa cultura atribui um valor menor à vida animal e naturalmente banaliza o luto por ela. Para ilustrar a importância do padrão cultural na expressão das emoções, vale a pena citar o Egito Antigo, no qual cães e gatos eram honrados e adorados como deuses. Quando um destes companheiros falecia, os proprietários manifestavam o luto raspando as sobrancelhas e lamentando em voz alta por vários dias.

 

O que explica esse sentimento de luto pela perda de um animal?

Em termos neurobiológicos, o luto pela perda de um companheiro seria modulado pelos mesmos mecanismos neurais que regulam o luto por humanos. Pesquisadores da Universidade da Columbia University e do New York State Psychiatric Institute defendem que a ligação entre a amígdala, estrutura reguladora das emoções, e as regiões pré-frontais do córtex cerebral é responsável por regular o foco da atenção e os sentimentos de tristeza dos enlutados. Estes mecanismos seriam os responsáveis por manter os pensamentos recorrentes com o ente falecido e pela tristeza, sintomas cardinais do luto. Porém, para entender completamente o luto, seria necessário entender a complexa relação entre o homem e estes queridos companheiros.

Anna Quindlen, em "Good Dog Stay", descreveu a relação com seu cão como a única relação não complicada em sua vida: "o que você vê é o que você tem". Fromma Walsh, professora e fundadora do Chicago Center for Family Health, descreve que muitas pessoas, de crianças a idosos, experimentam uma profunda afinidade com o companheiro de estimação e que isso transcende a dimensão espiritual da experiência humana. Poderíamos ainda dizer que esta relação se dá pelo amor fraterno, despertado pela compaixão pelo mais fraco e indefeso.

Foi tentando entender a natureza da associação homem-pet que alguns estudos se debruçaram sobre a Teoria do Apego, descrita na década de 80 pelo psicanalista John Bowlby. Segundo Bowlby, o apego caracteriza-se, entre outras coisas, pelo desejo de estar perto, aconchegar-se, cuidar, segurar, necessidade de estabelecer contato visual e sorrir na presença do outro. O apego está presente na relação entre genitores e bebês, em relacionamentos românticos entre humanos e entre animais e seus filhotes. É provável que a relação bilateral de apego homem-animal seja o fator determinante para o desenvolvimento do sentimento de luto. Podemos dizer que um forte apego preanuncia uma reação de luto mais intensa.

 

O luto por uma morte abrupta pode ser mais difícil de superar do que o luto por uma morte já esperada?

As mortes por acidentes, bem como as mortes por desastres naturais, são bastante traumáticas. O sentimento preponderante nestes casos é a culpa, já que muitos cuidadores acreditam que poderiam ter evitado o acidente. Depressão, pensamentos recorrentes com o acidente, estresse agudo e estresse pós-traumático já foram relatados nestes casos.

Sentimento de culpa também costuma ocorrer em casos em que a morte se deu por eutanásia. Alguns estudos apontam que o arrependimento e a culpa acometem mais o cuidador que autorizou o procedimento. Dúvidas frequentes costumam ser: "eu fiz a coisa certa?", "eu tomei a decisão muito cedo?", "esperei demais para tomar a decisão?", "ele sofreu?".

Alguns estudos também apontam a figura do médico-veterinário como um provedor de conforto nos dias que seguem a morte. Este seria um fator importante na diminuição da intensidade do luto. No entanto, nos casos de eutanásia, o cuidador frequentemente desenvolve sentimentos contraditórios em relação à figura do médico-veterinário.

 

O luto pela perda de um animal, para algumas pessoas, chega a ser maior do que na perda de algum parente. Esse tipo de comportamento pode ser considerado normal ou depende de alguns fatores?

Ainda são poucos os estudos comparando este sentimento ao luto pela perda humana. Mas, em um destes, algumas pessoas relataram sentimentos de igual ou maior intensidade do que na perda de um parente. Esse comportamento pode ser considerado normal em casas onde o companheiro foi amado, respeitado e incorporado como parte da família. Esse sentimento vai depender também de alguns fatores, tais como o apego e o papel que aquele companheiro representou para o indivíduo. Nestes mesmos estudos, os participantes relataram que a presença do companheiro havia ajudado a superar períodos críticos da vida, como separação conjugal, desemprego e morte de familiares.

 

Quanto tempo o luto pela perda de um animal pode durar?

Não existem muitos estudos sobre o assunto, mas o tempo parece oscilar entre semanas e meses. Em um estudo, 1/3 dos entrevistados relataram luto e sentimento de tristeza por até 6 meses. Mas, de modo geral, o luto pela morte de um companheiro dura menos do que o luto pela perda de um parente próximo. A ausência de protocolos e rituais sociais para esse tipo de luto é um fator que pesa para seu encurtamento. Nesses casos, o cuidador tem que lidar com a contradição entre seus sentimentos e os sentimentos da sociedade. A falta de suporte social acaba fazendo com que o indivíduo ceda às pressões externas de continuar a vida sem deixar que seus sentimentos interfiram em suas atividades diárias. A evolução normal do luto é a diminuição gradual de intensidade até que reste a lembrança do ente querido, desprovida da tristeza e da dor inicial. Quando isso não ocorre, ou em casos em que o luto se torna muito intenso e insuportável, ele passa a ser considerado patológico.

 

Qual é a melhor forma de lidar com esse sentimento?

A melhor forma de lidar com o sentimento é aceitá-lo. A saudade, a dor e a tristeza fazem parte do processo do luto necessário para reorganizar a vida. Embora a lembrança nunca se vá, a tristeza a ela associada vai perdendo intensidade. Enquanto isso não ocorre, algumas atitudes que marquem um encerramento podem minimizar a dor e trazer algum apoio:

- uma cerimônia de sepultamento em cemitério para animais ou em propriedade privada;

- inteirar-se das necessidades de um abrigo de animais próximo de casa, reunir amigos e familiares para uma doação em memória do companheiro;

- falar sobre a morte com amigos ou familiares que sabidamente se importam;

- plantar uma flor ou árvore em memória do companheiro;

- organizar um livro memorial com fotos;

- escrever em obituário na internet;

- buscar grupos de apoio ao luto;

- para as crianças: escrever uma carta ao companheiro falecido;

- e quando estiver pronto: adotar outro companheiro.

 

Fonte: www.idmedpet.com.br

Katia Ramos é uma Protetora Independente de Animais, apaixonada por bichos e, claro, pela Chow Chow Sharon Stone, de nove anos, que é uma celebridade pet.Moradora de Alphaville há 11 anos, Katia também participa de causas contra os maus tratos aos animais e também faz parte do Grupo das Meninonas S.A, de Alphaville, como Diretora de Proteção aos Animais.

Cãoluna
com Katia Ramos
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