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09/02/2017 19:40 - Atualizado em 09/02/2017 19:40
Quem te viu, quem te vê
Claudio Mortari Jr.

Dia 17 de agosto de 2016. Jogos Olímpicos. Animação a todo o vapor e a oportunidade de assistir à partida de basquete entre EUA X Argentina. Dream Team x Geração de Ouro.

Antes da partida, uma programação para chegar horas antes e desfrutar do Parque Olímpico. Realmente um lugar espetacular, parecia que o mundo inteiro estava lá e coisas simultâneas aconteciam, minuto a minuto.

Tinha uma credencial que permitia acesso a todas as instalações. Para mim, que trabalho com esporte, algo indescritível de ver tão de perto a grandiosidade das instalações por onde os melhores atletas do mundo passaram ou passariam.

Meu contato com uma das arenas começou durante as finais do NBB, mais precisamente dia 20 de maio de 2016, Arena Carioca 2. Tudo novinho faltando detalhes para a arena que seria utilizada pelo Judô. Um espetáculo.

Foram dias em contato com o pessoal da Rio 2016 e a confirmação de que nos próximos meses tudo funcionaria de acordo com o programado. No dia 17 de agosto a confirmação e o deleite de estar no melhor local do mundo naquele momento.

Quando estava lá viajando e imaginando os benefícios que o povo carioca teria com um Parque Olímpico ali tão pertinho para desfrutar e para formar atletas, me deparei com uma situação: “‘Peraí’, o Parque Olímpico não possui banheiro público e nem bebedouro”. Tudo que estava lá era provisório. E a partir de então comecei a pensar no pior:

“Como será esta desmontagem da arena de Handebol?”
“Como vão remover a piscina do Parque Aquático?”
“Como será estas salas de aula no lugar das quadras?”
“E em Deodoro, onde fizeram várias obras, o que irá acontecer?”
“A transolímpica auxiliará no trânsito caótico de hoje no Rio de Janeiro?”

Não demorou muito e as respostas vieram. Recentemente fizeram uma reportagem abordando estas questões que coincidentemente foram de encontro às minhas perguntas em 17 de agosto de 2016. Abaixo a matéria que foi amplamente divulgada na mídia.

 

Rio pós-olímpico tem arenas fechadas, entulhos e disputas judiciais

Cinco meses após o término dos Jogos, Parque Olímpico tem apenas uma de suas partes aberta à população e sujeira acumulada no entorno. Parque Radical sem previsão de abertura

Por Flávio Dilascio e Thierry Gozzer – GloboEsporte.com 

Arenas fechadas, cenário de abandono em alguns locais, disputas judiciais, gestões conflitantes e um parque público sem previsão de abertura. Este é um resumo da situação dos equipamentos esportivos construídos para a Rio 2016. Chamado de o "Coração dos Jogos", o Parque Olímpico tem sido pouco utilizado desde o fim da Paralimpíada. Do lado de fora, há muito entulho e lixo acumulado. Materiais como cabos de ferro e fios de cobre têm sido depositados junto às grades. A gestão do Parque é dividida. Há áreas administradas pelo Ministério do Esporte, Prefeitura do Rio, Concessionária Rio Mais e Comitê Rio 2016, o qual já teve a sua estrutura física desativada, mas ainda possui responsabilidade sobre as áreas conhecidas como IBC e MPC.

Erguido a um custo inicial de R$ 2,34 bilhões (R$ 1,67 bilhão de parceria público-privada e R$ 666,3 milhões do governo federal), o Parque Olímpico fica aberto para a população apenas nos fins de semana. Inaugurada no último dia 21 de janeiro pelo prefeito Marcelo Crivella, a área de livre circulação chamada de Via Olímpica tem sido uma opção de lazer para os cariocas, principalmente para os moradores da região. A área de visitação está compreendida num grande espaço livre entre as arenas.

O legado do Parque, porém, para por aí. Chamadas de instalações permanentes, as Arenas Cariocas 1, 2 e 3 estão fechadas desde o fim da Rio 2016. Com capacidade para 16 mil espectadores, a Arena 1 faria parte do Centro Olímpico de Treinamento (COT), projeto do Ministério do Esporte que segue sem previsão de início. A Arena 2, que já recebeu uma final do Novo Basquete Brasil (NBB), também deveria servir como centro de treinamento, enquanto a 3 seria transformada em escola, sem previsão para a inauguração. O Velódromo, que deveria receber projetos sociais voltados para o esporte, também está fechado.

Palco do handebol da Olimpíada, a Arena do Futuro será completamente desmontada para dar origem a quatro escolas públicas. O prazo é o segundo trimestre deste ano, mas a estrutura está praticamente intacta. Erguido a um custo de R$ 225,3 milhões, o Estádio Aquático está em processo de desmontagem. O prazo é até março, mas, ao menos externamente, o local continua com a sua aparência original, embora o fluxo de operários seja grande - o GloboEsporte.com não teve acesso à parte interna do estádio.

O entorno do Parque Olímpico apresenta diversos problemas. Bueiros destampados são uma realidade nas vias que contornam a área. Boa parte do material utilizado na Rio 2016 como placas de sinalização e cones estão abandonados e se deteriorando. Poças de água parada - possíveis focos de mosquito Aedes Aegypti - também fazem parte do cenário, tanto interno quanto externo. Durante uma das visitas à área, o GloboEsporte.com flagrou funcionários de uma das empresas que opera no Parque jogando cabos de ferro para fora da grade. O Ministério do Esporte disse desconhecer o fato.

 

Órgãos apresentam as suas versões

Após o cancelamento da licitação do Parque Olímpico, o Ministério do Esporte assumiu a gestão das arenas no fim de dezembro prometendo dar utilidade aos equipamentos. Segundo o órgão, uma equipe de transição começou a trabalhar no local apenas no último dia 23 de janeiro. O escritório funciona dentro do Velódromo e tem como finalidade executar os projetos prometidos para as Arenas Cariocas 1 e 2, para o Estádio Olímpico de Tênis e para o próprio Velódromo. O Ministério esclareceu que não tem qualquer responsabilidade sobre as áreas externas, às arenas, muito menos com a desmontagem do Estádio Aquático e da Arena do Futuro. A pasta informou também que fará uma licitação para manutenção e gestão das quatro instalações sob sua responsabilidade.

Prefeitura e Concessionária Rio Mais manifestaram-se em conjunto através da Subsecretaria de Projetos Estratégicos e Cdurp-Porto Maravilha do Rio. Os dois órgãos lembraram que o "Parque Olímpico está em processo de adaptação, desmobilização e desmontagem, portanto o cenário de obra em alguns trechos é inevitável". A nota ressaltou também que a Rio Mais é quem faz a manutenção das áreas públicas de uso comum do Parque Olímpico e que a Comlurb "reforçará o trabalho no local para agilizar a retirada de materiais inutilizáveis", apresentados pela reportagem do GloboEsporte.com.

O Comitê Rio 2016, que ainda administra o MPC e o IBC não respondeu às perguntas enviadas durante a semana. Em rápido contato com o GloboEsporte.com, o diretor de executivo de comunicação da entidade, Mário Andrada, confirmou que há áreas dentro do Parque ainda sob responsabilidade do Comitê, entretanto, ele não soube precisar se o MPC e o IBC ainda estão sob cuidados do Rio 2016.

 

Parque Radical está fechado; campo de golfe opera normalmente

Do outro lado da cidade, em Deodoro, o cenário é bem parecido com o do Parque Olímpico da Barra da Tijuca. Construído dentro de uma área militar, o Estádio de Deodoro já foi completamente desmontado. Outras instalações como Centro de Tiro seguirão como legado para futuras competições de civis e militares. Palco do basquete feminino e do pentatlo moderno da Olimpíada, a Arena da Juventude está fechada. O local será usado como uma das bases do Centro Olímpico de Treinamento, ainda não lançado.

Na parte Norte do Complexo de Deodoro, o Parque Radical está fechado desde o último dia 7 de dezembro. O local, que abrigou o Estádio Olímpico de Canoagem, o Centro Olímpico de BMX e o Parque Olímpico de Mountain Bike, funcionava como parque público para a população desde o fim da Rio 2016. O motivo alegado pela prefeitura para o fechamento foi a troca de governo. A empresa que geria o equipamento teve o seu contrato finalizado e "hoje o Parque Radical não oferece as condições necessárias de segurança para que seja reaberto". Segundo a prefeitura, a Casa Civil devolveu a administração do Parque esta semana, e existe uma possibilidade de o equipamento abrir somente aos domingos, "até que se possa discutir o melhor método de administração".

O fechamento do Parque Radical desagradou bastante a população carioca, principalmente os moradores de Ricardo de Albuquerque, bairro vizinho à principal entrada do equipamento. Segundo o motorista Carlos Luiz, o Parque Radical poderia servir à comunidade com escolinhas e projetos sociais para crianças.

- Sou vizinho do Parque e achei um absurdo o fechamento. Era uma oportunidade enorme de deixarem um legado da Olimpíada, tirando crianças da rua e colocando-as para praticarem um esporte - lamentou.

Um dos poucos legados olímpicos que realmente está funcionando é o Campo de Golfe. Alvo de protestos durante a sua construção por ter sido erguido em uma área ambiental na Barra da Tijuca, o local está aberto diariamente podendo ser utilizado por qualquer pessoa. O campo funciona num sistema de aluguel com o praticante trazendo o seu próprio equipamento. Durante a semana, o preço de uma partida completa (18 buracos) sai a R$ 250. Nos finais de semana, o valor sobe para R$ 280.

Apesar de estar funcionando normalmente, o Campo Olímpico de Golfe enfrenta problemas judiciais. A Progolf Brasil cobra da Confedereção Brasileira de Golfe (CBG) uma dívida de R$ 1,125 milhão. A empresa era responsável pela infraestrutura do espaço de 389 mil metros quadrados - o equivalente a 43 gramados do Maracanã.

Decisão da Juíza Maria Cecília Pinto Gonçalves, da 52ª Vara Cível do Rio de Janeiro, do dia 9 de dezembro, impede a suspensão do contrato para que a CBG deposite caução idônea no valor do débito - fora o R$ 1,125 milhão, não estão computados o mês de dezembro e os 12 dias de janeiro, período final da Progolf no campo olímpico. Durante a visita do GloboEsporte.com, a administração do Campo de Golfe não quis conversar sobre o assunto.

Claudio Mortari Jr. é profissional de Educação Física especialista em Treinamento Desportivo, Gestão Estratégica de Negócios e Marketing. Atuante na área de Gestão Esportiva, organização de eventos e competições esportivas. Contato: mortarijr@terra.com.br

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com Claudio Mortari Jr.
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