Estou migrando
meus livros para o sistema eletrônico (ebooks).
Busquei informações e disseram que eu mesmo
poderia fazer isto, mas, diante do primeiro “tutorial”,
desisti. É preciso ter uma lesão mental
para conviver com tutoriais. Procurei, então, várias
alternativas de fornecedores para realizar o trabalho
e fui soterrado por toneladas de “veja bem”,
“pode ser”, “talvez”... De cada
lado uma informação diferente, sem contar
os irritantes “ah, mas é tão fácil!”.
Pedi orçamentos, recebi loucuras. Sem contar as
ameaças do tipo “olha, se não fizer
assim e assado, você será pirateado, sucateado,
incompatibilizado”.
Seis meses depois eu estava no mesmo ponto zero.
Parti para o plano B: fornecedores de fora do Brasil.
Num blog dos Estados Unidos encontrei dicas,
mandei um e-mail para o primeiro indicado e recebi
em algumas horas uma resposta: “não posso
fazer por ser em português, mas conheço quem
faz”. Em minutos, eu estava em contato com o fornecedor,
que respondeu com uma praticidade chocante: dá
pra fazer, é assim que funciona, leva dez dias
e custa entre 150 e 400 dólares. E fazemos para
o Kindle e para o ePub, dois dos sistemas de leitores
eletrônicos mais populares.
Enviei os arquivos e, por e-mail, recebi um orçamento
inteligente. A cada aba uma instrução, um
download, uma explicação. Preço:
340 dólares. Bem, encurtando o assunto: duas semanas
depois o livro está praticamente pronto, sem estresse,
sem chororô, sem desculpas.
Refleti sobre a diferença entre fazer negócio
com os fornecedores brasileiros e com os norte-americanos
e descobri que o que mais me chamou a atenção
foi algo prosaico:
- Ele acredita em mim!
Sim. Credibilidade. O fornecedor dos EUA acreditou em
tudo o que eu disse e cumpriu tudo o que prometeu, fazendo
com que eu acreditasse nele. Não teve “caiu
o sistema”, “o Correio entrou em greve”,
“fiquei sem Speedy”, “faltou um funcionário”,
“subiu o dólar” ou “o trânsito
estava lento”. Não teve “não
aceito PDF”, “não pode usar cores”,
“foi feriado”, “me manda por motoboy”
ou “não aceito cartão de crédito”...
Sem desculpas. Dá pra fazer, é assim que
se faz, custa tanto e pronto.
Meu interlocutor sabia o que estava falando, me orientou
com precisão, ofereceu todos os meios de acesso,
respondeu a todas as perguntas imediatamente e, quando
achou que não dava, disse: “não dá”.
Sem “talvez”, “vou ver”, “liga
mais tarde”.
No Brasil, acostumados a não acreditar nos outros,
sempre deixamos um colchão enorme nas negociações.
Já esperamos pelo atraso, pelos problemas de qualidade,
pela entrega diferente do prometido, pelas exceções
que são regras, pelo chute do especialista e pelas
desculpas, as desculpas, as desculpas...
Livre da teia de desculpas que caracteriza os negócios
no Brasil, fiquei, como a gente dizia lá em Bauru,
encafifado. Senti uma sensação estranha,
agradável, que me deixou curioso:
- O que será?
Era profissionalismo.
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